Vida e Obra
Introdução
O Professor João Soukup foi o criador dos cursos de Cartografia para alunos de Geografia e História na Pontifícia Universidade Católica (1943) e na Universidade de São Paulo (1947). Mostraremos todo o enorme acervo de suas obras, desde as mais simples, quando exercia a profissão de agrimensor, até as mais exatas e belas, quando na figura de Professor Universitário. Impregnava o seu trabalho gráfico de acurados preceitos didáticos, levando sempre em conta o aluno e o verdadeiro aprendizado.
Tudo era feito à mão livre, empregando-se uma gama enorme de materiais de desenho como réguas, esquadros, lápis, penas para tintas, pincéis, papéis especiais, compassos, tira linhas, etc. Cada assunto abordado era estudado minuciosamente em quadros murais, revelando-se aí os conceitos matemáticos aplicados e a melhor forma de apresentação visual. A atenção era individual, no que pese o cansaço do Professor por ir de aluno em aluno, corrigindo e orientando.
Recebemos da família Soukup cerca de 140 trabalhos, muitos dos quais se subdividem em vários outros. Existem também inúmeras ilustrações de livros comuns e, mais ainda, de livros didáticos – como os do Prof. Aroldo de Azevedo – importando em centenas de desenhos, do curso primário ao secundário (hoje, Ensinos Fundamental e Médio). Esperamos, o Professor João Soukup e eu, colocar todo esse material para uso e conhecimento geral. Solicitamos unicamente que seja declarada esta fonte.
Trabalhos efetuados como topógrafo, antes de ser Professor Universitário.
Capítulo I
- Chegada ao Brasil
O desenhista e agrimensor João Soukup, recém-chegado de Viena no ano de 1920, já lidava com a Cartografia há muito tempo. Fora cartógrafo do Exército Austro-Húngaro na guerra de 1914-18 (Primeira Guerra Mundial), estudando em Tirana, na Albânia, na Escola Campal de Mapeadores do Exército Austro-Húngaro. Acredita-se que aí aprendeu a fazer todos os tipos de desenhos para uso da guerra: croquis, esboços, cartas para ações militares da infantaria, artilharia e cavalaria, cartas essas que envolviam um perfeito conhecimento de topografia, pois delas dependeria a vida dos companheiros.
Suas habilidades com as cores e o desenho foram primordiais para o seu posto no exército. Com 18 anos, após ter concluído o curso secundário e se dedicado a um curso pedagógico, em virtude da guerra, foi convocado imediatamente, passando quatro anos no campo de batalha na região dos Bálcãs. Nesses quatro anos de vida difícil e perigosa, nasceu a ideia de procurar um lugar melhor para viver. Terminada a guerra, juntou-se a um grupo de amigos que já falavam do Brasil e para cá vieram.
Aqui chegando começou a trabalhar com o que mais sabia fazer: agrimensura. Dedicou-se ao desenho topográfico não recusando, no entanto, nenhum outro serviço gráfico.
Percorreu muitas cidades do interior paulista fazendo plantas de chácaras, loteamentos e todo tipo de trabalho congênere. Dessas épocas de adaptação à nova língua – muito diferente do alemão, ao clima – muito quente em comparação ao que estava habituado – e aos costumes de um país desconhecido – o Brasil, a família conseguiu preservar somente um pequeno clichê de metal usado em suas propagandas nos jornais.

No clichê temos um mapa da serra de Cubatão onde aparece a hidrografia – o Rio Cubatão ao centro, a escarpa da Serra do Mar em gradação de tons – a estrada de automóvel, atual estrada velha de Santos, hoje interditada até para passeios.
Note-se a ortografia da época e a data: 1925, que marca sua condição de recém-chegado ao Brasil. Naturalizou-se em 1940.
A língua portuguesa o atrapalhava muito. Era mais fácil a agrimensura do que a escrita, completamente diferente do alemão. Mas ele aprendia o português brasileiro aos poucos, sempre podendo contar com amigos que faziam as revisões dos rascunhos dos seus trabalhos. Nas margens dos rascunhos encontramos, às vezes, palavras escritas, frutos de perguntas feitas a esses amigos colaboradores.
Em 1925 houve uma reforma ortográfica; anos depois, outras reformas. Essas reformas são difíceis para os próprios brasileiros; o que se dizer em relação a um estrangeiro que faz uso da nossa língua!
Assim, sempre com grande esforço, o Prof. João Soukup conseguiu elaborar uma obra que podemos chamar, sem nenhuma dúvida, de magnífica! Os pequenos enganos na escrita – um acento aqui, uma letra ali – criaram um álibi para a identificação dos seus trabalhos, mesmo quando não traziam sua assinatura característica “JS”. O seu estilo é inconfundível, servindo, os errinhos, apenas para confirmação, sem tirar, em hipótese alguma, a grande qualidade das obras.
Na obra Um Trem Corre Para o Oeste: Estudo sobre a Noroeste do Brasil e seu papel no sistema de viação nacional, de Fernando de Azevedo, 2ª ed., publicada pela Melhoramentos como parte das Obras Completas desse autor (n. XII, sem data de publicação), não há assinatura do Prof. Soukup nos oito mapas, nem referências ao desenhista. Mas, insofismavelmente, a autoria é dele, pois seu estilo é inconfundível.
Curiosamente, todas as fontes consultadas só apontam à 2ª edição da obra, de 1958. Não conseguimos saber a data da primeira edição. No entanto, nas orelhas da obra, constam comentários datados de 1950, o que nos leva a crer que esta tenha sido a data da 1ª edição. As fotos aqui apresentadas são, todas, da 2ª edição.
De l920 até l936, João Soukup, anda não professor trabalhou, por conta própria, como agrimensor. No ano de 1936 foi nomeado agrimensor da Diretoria de Engenharia da Procuradoria do Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado de São Paulo. Para esse cargo eram necessários bons conhecimentos profissionais, grande precisão e seriedade nos trabalhos, pois deles dependeriam os pareceres finais sobre assuntos importantíssimos da Procuradoria.
O trabalho que desenvolveu na Procuradoria ainda não foi examinado em detalhes. Porém, a família preservou o original de um mapa sobre o litoral sul do Estado de são Paulo em que há uma grande riqueza de detalhes e anotações sobre a localização de empreendimentos imobiliários pioneiros naquela área.
Capítulo II
- O início do trabalho universitário
Tudo começou no ano de 1943, na Faculdade de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae, atual Pontifícia Universidade Católica de São Paulo que, à época, tinha filiais espalhadas pelo estado. A Reverenda Madre Santo Ambrósio, Diretora da Faculdade, num gesto de grande iniciativa, percebeu que o ensino sobre mapas fazia falta às alunas dos cursos de Geografia e História. As alunas – o colégio era frequentado somente por meninas – desses cursos usavam muitos mapas murais e atlas, pelos quais acompanhavam todas as explicações das aulas desenvolvidas pelos professores especialistas nas diferentes disciplinas.
O problema é que, de acordo com a Madre Santo Ambrósio, as alunas não conseguiam compreender bem as informações que os mapas traziam, ou seja, não conseguiam aquilatar distâncias, entender as legendas, lidar com a orientação, analisar um mapa fisiográfico ou de relevo, de modo a relacionar tudo isso com as diferentes escalas e ainda com os fatos históricos e geográficos. Essa era uma grande falha que havia no currículo!
A Diretora saiu a campo pesquisando e perguntando sobre pessoas que pudessem suprir essa falha curricular, e terminou por encontrar o agrimensor da Procuradoria, com excelentes referências: um senhor de 46 anos de idade, de nacionalidade austríaca, a quem convidou para criar e ministrar a disciplina de Cartografia para os cursos de Geografia e História do Instituto. Essa disciplina não fazia parte do currículo de nenhum curso superior do país, até então.
Desse modo, o agora Professor João Soukup criou, para o Instituto Sedes Sapientiae, a disciplina solicitada, contendo o programa, as cargas horárias e a bibliografia alinhada aos cursos. Planejou as aulas práticas, elaborou aula por aula com muito cuidado, dedicando-se de corpo e alma a uma atividade que acreditava ser única, rara e honrosa para um imigrante fugitivo de guerra, que jamais pensara exercer: ser Professor de uma faculdade!
Ensinar aquilo que ele mais conhecia, aquilo que ele estudou com muito afinco durante seus 4 anos no exército Austro-Húngaro, os assuntos que, para ele, eram conhecidos desde a juventude e que dominava amplamente, podemos afirmar que – por nos relacionarmos com o Prof. João Soukup, como seu aluno, pelo período de dois anos na USP e, agora, por conhecer quase toda sua obra – era, para ele, grande alegria. O ânimo e o furor acadêmico se apossaram dele!
Devido à inexistência de material didático, ao mesmo tempo em que criava a disciplina como currículo, começou também a preparar uma profusão de quadros murais, mapas, esboços, folhas de modelos didáticos, aulas práticas gráficas, etc., para a recém-criada disciplina de Cartografia. Em anexo, há uma lista de trabalhos datados de 1943, para mostrar que, além do trabalho na Procuradoria, o Prof. Soukup, que dava aulas duas vezes por semana, em um só período, ainda fazia serão para produzir o material didático, aproveitando, quase sempre, os finais de semana, férias e feriados.
Em conversa com os familiares soubemos que dificilmente se conseguia tirá-lo da mesa simples em que trabalhava – a pequena mesa da cozinha, aumentada com caixotes para apoiar os papeis de desenho – para alguma outra atividade, mesmo nos feriados, sábados e domingos! Além disso catava, pelas ruas e lojas, tudo quanto era papelão duro em bom estado para colar os trabalhos dando-lhes maior proteção. Também pegava varetas de madeira para encabeçar os mapas murais.
Relação de obras produzidas no ano de 1943
1. Quadro Mural com o material e utensílios que se esgotam, empregados na Cartografia e cópia para os alunos, com materiais que não se esgotam à direita.
2. Aulas práticas.

3. Projeções sobre um plano: central, meridiano e polar. Estereográficas: azimutais e em perspectiva. Ortográficas: polar, equatorial e meridiana.
4. Quadro resumo das projeções mais usadas na representação da superfície do esferóide terrestre: equidistantes, equiangulares, equivalentes e outras.
5. As convenções usuais em relação à escala: folhas A, B, C e D. Há quadro mural.
6. Projeções cônicas (folha M).
7. As dimensões da terra segundo Bessel (1841). Há quadro mural.
8. Representação altimétrica ou “relevo”. Cotas, curvas de nível, hachuras, esbatido e cores.
9. Material e utensílios usados na Cartografia.
Capítulo III
- A consolidação da carreira universitária
Em 1945, o Prof. João Soukup instala e organiza o Curso de Cartografia na Faculdade de Filosofia da Universidade Católica de Campinas.
Dois anos depois, em 1947, nas faculdades do Instituto Sedes Sapientiae, as aulas sobre Elementos de Cartografia passam do 3° para o 1° ano, a pedido dos professores, de modo que, desde o primeiro ano, os alunos se interessassem pelas informações dos mapas. A partir de então houve vantagens para os cursos de Geografia e de História, pois os alunos, desde o início do curso, desenhavam pequenos croquis, e a compreensão dos mapas e cartas, pela leitura das legendas, era mais eficiente.
Nos trabalhos práticos usavam-se cópias heliográficas manuais, feitas numa prensa com vidro de um dos lados, que o sol queimava e o amoníaco revelava. Essa era a única maneira de se obter cópias de papel transparente.
As cópias heliográficas apresentavam modelos completos e instruções do exercício, também desenhadas e escritas manualmente, ao lado esquerdo do papel. O aluno, seguindo as orientações deveria copiar o desenho, no mesmo papel, do lado direito, como mostram as folhas de aulas práticas (fotos 18 a 210).
Em todas as aulas, o Prof. Soukup levava quadros murais construídos por ele, com informações complementares, que dependurava na parede da sala, dando aos alunos a oportunidade de consultá-los para a de troca de ideias, sobre o assunto estudado, com os colegas.
Quando desenhava para mostrar a maneira correta de proceder no uso dos instrumentos de desenho técnico e artístico, o Professor dava aos alunos a liberdade de movimentação em sala, e se via rodeado por eles.
O blocodiagrama foi incluído no programa e com ele os elementos de perspectiva, os planos hipsométricos e os efeitos do sombreado esbatido para melhorar a aparência tridimensional. Com esse tipo de desenho, de acordo com alguns artigos que o Prof. Soukup escreveu, houve maior entusiasmo dos alunos, o que significou um grande estímulo para o Professor.
O modelo apresentado é uma carta topográfica tridimensional, resultante da carta topográfica hipotética criada pelo Prof. Soukup para trabalhos práticos de cada aluno sobre temas específicos como cálculo de áreas, declividades, perfis, orientação, cartas náuticas, etc.
Para familiarizar os alunos com as linhas retas, curvas e circulares, foi introduzida a projeção de Mercator-Sanson, fácil de desenhar e muito útil para o conhecimento das medidas do globo terrestre.
O Prof. Soukup achou necessário que os alunos obtivessem também um pequeno conhecimento sobre levantamentos planimétricos e altimétricos e incluiu esses assuntos no programa.
Já que os mapas em curvas de nível eram conhecidos, foi possível também desenvolver a construção de perfis topográficos, quer longitudinais, quer transversais, sempre com cuidado na sobrelevação, para não haver exageros.
Em 1954, no Instituto Sedes Sapientiae, o curso de História foi separado do de Geografia, e o número semanal de aulas dobrou (4)! Então, foram incluídas aulas de campo, o que a nova diretora da Faculdade – reverenda madre Maria da Paz – apoiou sem hesitar, adquirindo aparelhagem especial, a saber: duas pranchetas, duas alidades de pínulas, prumos e todo material complementar. Esse tipo de aparelhagem também foi empregado na USP. Na foto a seguir, de Diva Beltrão de Medeiros, pode-se ver um aluno, no campus da USP, em aula prática usando a alidade de pínula sobre a prancheta, para traçar uma direção, sob a supervisão do Prof. Soukup, à direita.
Na sala de aula, sempre eram apresentados os quadros murais respectivos aos conteúdos, e tudo era posto à disposição dos estudantes.
Na Semana de Estudos Geográficos da Faculdade de Filosofia de Sorocaba, em 1955, a disciplina de Cartografia foi convidada e o Prof. João Soukup compareceu com um grande número de jovens estudantes e com 60 quadros murais, mostrando o êxito de suas aulas, desde 1943.
Assim, o Prof. João Soukup tratou da Cartografia com muito zelo, durante toda a sua vida, ministrando aulas, criando cursos e materiais didáticos nas Faculdades da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (antigo Instituto Sedes Sapientiae), FFCL de São Bento, de Campinas, Santos e FFCL de Sorocaba que, à época, pertencia à Fundação Scarpa. Também lecionou na Universidade de São Paulo.
Capítulo IV
- O transcurso do Prof. Soukup na USP
Aos 3 de janeiro de 1947, de acordo com os documentos do arquivo morto da Universidade de São Paulo, o Prof. Plínio Ayrosa, vice- diretor em exercício da Faculdade de Filosofia da USP, solicitava ao Exmo. Sr. Prof. Dr Benedito Montenegro as
[…] providências necessárias junto à Procuradoria do Patrimônio e Cadastro do Estado, no sentido de ser posto à disposição desta Faculdade, com prejuízos de vencimentos e sem prejuízos das vantagens do seu cargo efetivo, o Sr. João Soukup, a fim de prestar neste Instituto serviços técnicos de sua especialidade.
E assim começava o que acreditamos tenha sido uma das mais brilhantes carreiras de Professor Universitário, no campo da Cartografia, no Brasil. Mas, surgem aqui, várias perguntas: Como a USP “descobriu” o “Sr. João Soukup”? Quem o indicou para as aulas de Cartografia nessa universidade? A história dessa trajetória nos foi contada pelo Prof. Aroldo de Azevedo, numa conversa. Procuramos refazer essa história de memória:
– Em 1941/42 estava eu (Prof. Aroldo de Azevedo) na Editora Nacional, tratando de assuntos ligados aos meus livros – editados desde 1936 – quando ouvi, por trás de uma parede de madeira, uma conversa do Prof. Delgado de Carvalho criticando meus livros no tocante aos mapas e gráficos. Dizia o colega as piores coisas: “mapas horríveis”, “mal feitos”, “que ninguém entende”, etc.
– Quando voltei para casa fui examinar bem os mapas que eu mesmo fazia e os comparei com os do Delgado, no seu livro Geografia Humana, de 1935. Os desenhos dele, quer mapas, quer gráficos, eram bem superiores, muito melhores que os meus. Tomei então a iniciativa de procurar por um desenhista, também.
– Dias depois, na Editora Nacional, me apresentaram dois desenhistas que lá trabalhavam, fazendo todos os tipos de ilustrações de textos que a editora necessitasse. Um deles era o Soukup, que eu não conhecia ainda.
– Para ter uma prova exata da capacidade dos desenhistas e escolher o melhor deles, a fim de deixar os meus livros com ilustrações não mais negativamente criticáveis, dei a ambos um trabalho que eu considerava difícil, em que havia cordilheiras bem altas, rios, planícies e linhas de costa. Enfim, um trabalho bastante completo e complexo do ponto de vista dos detalhes, para que eu pudesse escolher o melhor.
– Como amostra a ser executada, entreguei a ambos o mapa das bacias do Indo, Ganges e Bramaputra, tendo incluído, no conjunto, a famosa “Morada das Neves” – a Cordilheira do Himalaia.
Como curiosidade, observa-se que os rios Cabul, Indo e Tsen-Bo, desenhados sobre a parte alta do Himalaia (área acinzentada, mais escura) têm seus traçados sublinhados por um risco branco, para melhor visibilidade. Essa era uma estratégia usada por Soukup, que o diferenciava dos demais desenhistas e marcava a técnica aprimorada de seus trabalhos. Esse sublinhado em branco também se aplicava aos nomes dos rios em áreas escuras, de modo que ficassem totalmente legíveis.
– Alertei que me fosse apresentado um bom trabalho, pois dele eu escolheria o meu desenhista. Uma semana depois recebi os dois desenhos, ficando patenteada, sem sombra de dúvida, a qualidade, a perfeição de detalhes, a clareza e a elevada técnica do Sr. João Soukup.
– Daí por diante, passou o Prof. Soukup a desenhar todos os meus mapas, dando uma qualidade especial às minhas obras.
Abrimos, aqui, um parêntese, para lembrar que, na década de 40, quando Aroldo de Azevedo conheceu Soukup, todas as ilustrações de livros editados no Brasil – quer desenhos, quer fotos – eram eminentemente em preto e branco. Assim, todas as ilustrações desenhadas por Soukup para os livros de Aroldo de Azevedo foram feitas para ser impressas em preto e branco.
Perguntamos ao Prof. Aroldo qual a razão dele nunca citar, em prefácios ou notas de rodapé, o autor dos desenhos, o Prof. Soukup. Depois de sorrir, percebendo a nossa intenção de investigar a vida do Prof. Soukup, nos disse:
– Depois que o Prof. Soukup começou a lecionar na Faculdade de Filosofia do Sedes Sapientiae – a convite desta, em 1943, ficou bastante conhecido! Todos sabiam que era ele que ilustrava os meus livros e muitos outros, de outros autores. Além disso, ao lado da abreviatura do meu nome (A de A), noutro canto estava a letra S dentro do J, a não menos conhecida assinatura de João Soukup. Como todos os trabalhos eram impressos com essas duas siglas, eu nunca fiz referência especial ao autor dos desenhos dos meus livros.
Essa “assinatura” também era usada para vistar os trabalhos dos alunos. Para tanto, ele confeccionara um carimbo que se encontrava dentro de uma forma cilíndrica – à primeira vista, confundia-se com um batom – que tirava do bolso para marcar os trabalhos já corrigidos.
A vinda para a Faculdade de Filosofia da USP não foi fácil. Houve problemas burocráticos a serem superados, como os levantados pelo ofício n° 178/47 do Secretário de Justiça e Negócios do Interior, A. P. de Aguiar Whitaker ao Reitor da Universidade de São Paulo, que o encaminha ao Diretor da Faculdade de Filosofia, Prof. Dr. André Dreyfus, a respeito de sua contratação:
Senhor Reitor,
Em referência ao ofício n° 82, de 15 do corrente mês, Pr. 127-47, sobre comissionamento junto a essa Universidade do Sr. JOÃO SOUKUP, funcionário da Procuradoria do Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado, comunico a Vossa Excelência Magnificência não ser possível atender ao pedido em vista de obstáculo legal.
Porém, esse “obstáculo legal” foi ultrapassado 36 dias depois (26/3/47), com o aval do Governador do Estado, Adhemar de Barros:
[…] e usando de suas atribuições e nos termos do art. 41, do decreto-lei n° 12.273, de 28 de outubro de 1941, Resolve autorizar o afastamento de João Soukup, Agrimensor, classe “K”, do QG-PP-III, lotado na Procuradoria do Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado, para, sem prejuízo de vencimentos e demais vantagens do cargo efetivo e até 31 de dezembro de 1947, para prestar serviços técnicos de sua especialidade à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Reitoria da Universidade de São Paulo.
Palácio do Governo do Estado de São Paulo, aos 26 de março de 1947.
ADHEMAR DE BARROS.
O obstáculo legal era a falta do diploma de Curso Superior, documento que o Prof. Soukup não possuía e nem poderia obter na sua especialidade, pois não existia curso congênere no Brasil.
Abrimos, aqui, um parêntese para insinuar a possibilidade de que havia, sim, um diploma, que poderia corresponder ao grau universitário, de cartografia, cursado durante os 4 anos da I Grande Guerra, na Albânia, local em que João Soukup serviu ao exército Austro-Húngaro e onde estudou todas as disciplinas relacionadas ao tema. Seu grau de especialização em conhecimentos topográficos e cartográficos, a maestria com que ele tratava os variados assuntos que envolvem essas ciências: a precisão matemática, a física e os conhecimentos sobre a organização do terreno (na guerra, visando a movimentação e manutenção das tropas), que contribuiu com toda a base do ensino cartográfico, são saberes que não se aprendem em cursos colegiais, mas, sim, em anos de curso superior.
A família nos contou que ao fim da guerra, por estar em território inimigo, o exército Austro-Húngaro precisou deixar, abruptamente, o local em que se encontrava, preocupando-se em salvar vidas e não em recolher bens e documentos. Toda retirada é demasiadamente desorganizada. Dessa forma, toda a documentação que comprovaria o grau superior de Soukup perdeu-se. Cremos que possa até existir em algum local, tal documentação, mas como se trata de papelada de guerra, antiga (à época de Soukup no Brasil, com cerca de 50 anos e com vários agravantes: a 2ª Grande Guerra, a distância em que vivia, a dificuldade de comunicação, dentre outros), é possível que realmente, tenha se perdido. Fechamos o parêntese.
Como o fim de março se aproximava e as aulas iniciavam, autorizaram o afastamento do cargo “sem prejuízo de vencimentos, até 31/12/47″.
No ano seguinte, o mesmo foi feito e sua contratação pela Universidade de São Paulo deu-se, novamente, para “prestar serviços técnicos junto ao Departamento de Geografia pelo prazo de um ano”, até 19/3/49, prazo que foi prorrogado até 19/3/1950. A contratação pela USP era condicionada aos afastamentos da Procuradoria, que eram sempre dados por um ano.
Transcrevemos duas páginas do Boletim Paulista de Geografia, n° 3, 1949, pág. 82 e 83, para apresentar o programa de ensino de Cartografia criado pelo Prof. Soukup para a USP.
O ensino da Cartografia.
Desde 1947 os alunos do 1° ano do curso de Geografia e História vêm recebendo um curso de Elementos de Cartografia, ministrado pelo prof. JOÃO SOUKUP, dentro do programa seguinte:
1. Estudo da Carta da França.
2. Os processos de engenharia necessários à Cartografia: noções gerais.
3. Representação gráfica da “situação” ou parte planimétrica.
4. Representação gráfica do relevo.
5. Os letreiros dos mapas.
6. Leituras de cartas e possibilidades da cartometria em cartas de pequena escala.
7. Projeções cartográficas: estudo sintético.
8. O material de desenho e o manejo dos utensílios indispensáveis à Cartografia.
9. O desenho de mapas fisiográficos e construção de blocos-diagramas e de perfis hipsométricos.
10. Esboços panorâmicos e “croquis” topográficos.
Esse é o primeiro programa de Cartografia criado pelo Prof. João Soukup para os cursos de Geografia e História da Universidade de São Paulo. Pensamos que ele deve ter oferecido a bibliografia, as cargas horárias e os trabalhos práticos a serem executados pelos alunos.
Chama a atenção o item sobre a Carta da França. Na época, um material novo, o mais moderno, mas de difícil manuseio. Cremos que houve influência dos mestres franceses (que foram cofundadores da USP, trazidos pelo governo) na escolha dessa carta como material didático que nós mesmos ainda usamos em várias disciplinas, como alunos. Poderiam ter usado, por exemplo, as cartas em curvas de nível já existentes em l930, em várias escalas, elaboradas pela Società Anomima Rilevamenti Aerofotogrammetrici de Roma, mas a preferência foi dada à francesa.
Anteriormente já existiam outros levantamentos topográficos da cidade de são Paulo, como o de 1894, do engenheiro Bueno de Andrade, escala 1/1000, com curvas de nível de metro em metro. Mas talvez houvesse dificuldade em obter esse material topográfico, ou seja, as cartas em si. Já a carta francesa vinha em envelope, com cerca de dez exemplos didaticamente escolhidos, com toda variedade de acidentes topográficos e ainda um texto explicando detalhes técnicos.
Para entender melhor as ideias, o conteúdo e a maneira de didaticamente desenvolver o programa, podemos indicar alguns artigos do próprio Prof. Soukup, encontrados em seu livro Ensaios Cartográficos, a saber:
1. Uma aula inaugural de Cartografia no curso universitário. Publicado inicialmente no Anuário n° 16 da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae da PUC de São Paulo.
2. O conteúdo e a classificação das cartas e mapas.
3. Noções sobre o material e os utensílios empregados na Cartografia geográfica.
4. Os diagramas geográficos e sua aplicação. Publicado inicialmente no Boletim Paulista de Geografia n° 14.
5. Os Cartogramas e sua aplicação em geografia. Publicação inicial no Boletim Paulista de Geografia n° 15.
6. Levantamentos expeditos em pesquisas de geografia. Primeira publicação no Boletim Paulista de Geografia n° 20.
7. A prancheta e sua utilização em trabalhos geográficos. Publicado inicialmente no Boletim Paulista de Geografia n° 21.
Nota: Todos esses artigos estão integralmente disponibilizado neste site, na aba “Ensaios Cartográficos”. Não constam, nessa publicação, editora e ano de edição.
Além das aulas habituais em sala de aula com carteiras, geralmente, aos sábados, para atender os alunos que trabalhavam, eram ministradas aulas de campo, nos arredores do prédio da Reitoria do campus da Universidade onde alguns alunos, inclusive nós mesmos, colocávamos em prática as medições de distâncias, uso de trenas, aferição do passo duplo, etc. Medíamos também ângulos com bússola e sextante de ameias. Usávamos um clinômetro prático feito com um transferidor, para medir ângulos verticais. Até uma poligonal fechada conseguimos desenhar, dividindo os erros, com a prancheta e a alidade de pínulas. Saíamos das aulas práticas somente por volta das seis horas da tarde. Podemos dizer que o Prof. Soukup era o que à época, chamávamos de “caxias”, pois não dava a aula por encerrada enquanto os alunos não tivessem feito tudo o que havia a fazer.
Essas aulas de campo nos foram muito úteis quando, já no doutorado, no pontal do Paranapanema, aproximadamente em 1970, fomos obrigados a desenhar plantas e caminhos de pequenos lugarejos que não constavam dos mapas, porque não existiam cartas topográficas na escala de 1/50.000.
Capítulo V
- O Mapa-mundi com o centro na cidade de São Paulo, Brasil
Nos três anos iniciais de atividades do Prof. Soukup no Departamento de Geografia da USP, ele produziu uma longa lista de trabalhos cartográficas culminando, em 1949, com o Mapa-Mundi em projeção azimutal, oblíqua e equidistante, tendo como centro a cidade de São Paulo.
Recebeu, com esse mapa, alentadores estímulos de todas as partes, o que muito o animou nos seus já vividos 52 anos. Assim se manifestou o Reitor Prof. Miguel Reale, aos 2/9/1949, em ofício ao Prof. Soukup:
Prezado Senhor:
Foi com a maior satisfação que examinei o “Mapa Mundi” de sua autoria, tendo como centro a cidade de São Paulo, em projeção azimutal, oblíqua e equidistante. É sem dúvida um trabalho verdadeiramente notável e que bem exprime seu preparo técnico e científico, estando portanto de parabéns a nossa ciência cartográfica, pois já podemos contar com profissionais tão acuradamente preparados neste setor de nossa Universidade.
Com os meus parabéns efusivos, subscrevo-me atenciosamente,
Miguel Reale
REITOR
Logo a seguir, em 14/9/49, o Prof. Soukup recebe cumprimentos do então governador Adhemar de Barros:
Ilmo. Sr. João Soukup
Tenho o prazer de acusar o recebimento, por intermédio da Reitoria da Universidade, de uma cópia do magnífico trabalho de sua autoria, o “Mapa Mundi” em projeção azimutal, oblíqua e equidistante, tendo como centro a cidade de São Paulo.
Com os meus cumprimentos pelo belo trabalho, apresento-lhe os protestos de minha elevada estima e distinto apreço.
Adhemar de Barros
Governador do Estado
Como se tudo isso não bastasse, recebe ainda uma gratificação do governo do estado (correspondente a um salário dele) pela confecção do referido Mapa Mundi:
[…] nesta data, por ofício n° 3.174 da Reitoria, com referência ao ofício n°1.274, de 5 de setembro p.p., cumpre-me comunicar a V. Excia., de ordem do Magnífico Reitor, que o Excelentíssimo Senhor Governador, por despacho exarado em 4 do corrente a fls. 5 do Proc. 9008/49, desta Reitoria, houve por bem autorizar seja arbitrada ao Prof. João Soukup, do Departamento de Geografia desta Faculdade, a gratificação de Cr$4.ooo,oo, pela elaboração de um “Mapa Mundi”, em projeção azimutal, tendo como centro a cidade de São Paulo. (Proc. N° 9008/49).
Aos 18/8/1950, a Escola Superior de Guerra solicita o envio de 30 exemplares.
O processo de elaboração do “famoso” Mapa-Mundi foi publicado no Boletim Paulista de Geografia n° 3, com uma longa, porém clara explanação, na qual consta todo o trabalho trigonométrico, logarítmico, a projeção e finalmente, o desenho do mapa, em duas páginas, em branco e preto.
A USP também editou o mapa, em cores, na escala de 1/75.000.000, tendo o Prof. Soukup, para que essa publicação se realizasse, empregado 768 horas de trabalho intensivo, sendo 320 horas para os cálculos das ortodrômias e dos azimutes, 230 horas para a construção na escala de 1/50.000.000, e cerca de 218 horas para a elaboração do mapa definitivo, na escala de 1/75.000.000.
Para conhecimento dos alunos, o Prof. Soukup também elaborou um mapa didático simplificado, no qual mostrava sua utilização para radioamadores e aviação em geral, pois apontava as distâncias verdadeiras a partir da cidade de São Paulo e as direções em graus.
Em dezembro de 1950 terminaria o prazo de comissionamento do Prof. Soukup. Aos 31 de outubro desse ano, o Prof. Aroldo de Azevedo, então Diretor do Departamento de Geografia, envia ofício ao Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, diretor da FFCL da USP, solicitando novo contrato.
Trata-se, senhor Diretor, de um dos mais competentes membros do Departamento de Geografia, com larga experiência no magistério superior dentro de sua especialidade, e a respeito de cuja técnica ninguém pode ter dúvidas, desde que elaborou o “Mapa-Mundi” em projeção azimutal, tendo por centro a cidade de São Paulo. Parece-me, pois, de inteira justiça, dar-lhe nesta Faculdade a posição a que faz jús pelos seus conhecimentos e pela sua experiência. Nestas condições, é com a mais viva satisfação que venho solicitar de V.Excia. que, após a imprescindível audiência do Conselho Técnico Administrativo e da Congregação, seja proposto ao Governo do Estado o contrato do prof. João Soukup para dar o curso de Cartografia nesta Faculdade, pelo prazo de três anos e com os vencimentos de professor de tempo parcial”.
Essa é a primeira vez que João Soukup é chamado, oficialmente, pelo título de Professor. Além disso, o Prof. Aroldo de Azevedo afirma que o Prof. Soukup era “um dos mais competentes membros do Departamento de Geografia”. Ademais, reconhecia a sua capacidade, pois o indicava para ministrar o curso de Cartografia.
Ao receber a proposta, o Diretor da Faculdade de Filosofia encaminhou o pedido ao Prof. Fernando de Azevedo para que relatasse o assunto (4/11/1950). Assim se manifestou esse Professor, de próprio punho, aos 9/11/1950:
A proposta do sr. prof. Aroldo de Azevedo Diretor do Departamento de Geografia, de que seja contratado o prof. João Soukup para dar o curso de Cartografia, nesta Faculdade, pelo prazo de três anos e com os vencimentos de tempo parcial, está tão bem fundamentada e interessa de tal forma à Faculdade e, particularmente, ao departamento de geografia que não pode deixar de obter no Conselho Técnico Administrativo plena aprovação. Trata-se do contrato de um especialista de primeira ordem em Cartografia e topografia, cuja capacidade ressalta, com forte constância, de seus títulos, de sua carreira profissional e de seus trabalhos. Se de seu curriculum vitae não consta nenhum curso superior na especialidade, é certo que essa deficiência, do ponto de vista regulamentar, foi plenamente suprida por uma atividade profissional de longos anos, no campo da Cartografia e topografia a que se dedicou, quer no período da 1ª guerra mundial, de 1914 a1918, quer depois que se transferiu para o Brasil, onde se impoz ao respeito e á consideração de todos pela sua notável competência nêsses assuntos. Quanto posso julgar, dificilmente se encontraria, em nossos meios culturais, especialista com tantos títulos para exercer o magistério da disciplina. Sou, pois, de parecer que seja contratado, nos termos da proposta, o prof. João Soukup, que aliás já vem prestando excelentes serviços técnicos e didáticos ao Departamento de Geografia, como responsavel pelo curso de Cartografia.
Em 1955 houve demora no afastamento e o Prof. Soukup reassumiu suas funções na Secretaria da Justiça, no Patrimônio e Cadastro do Estado, pois estava comissionado sem vencimentos. Não havia outra pessoa que o substituísse no ensino da Cartografia. Este aflitivo problema é evidenciado no parágrafo transcrito abaixo, do pedido elaborado pelo Prof. Ary França, então Diretor do Departamento de Geografia:
Sendo Cartografia u’a matéria especial dentro de nosso Departamento, para cuja regência se exigem conhecimentos e aptidões particulares, o professor Soukup vém revelando com pleno sucesso nos 8 anos em que se encarregou do curso, e tendo o seu afastamento criado para nós um problema de difícil solução, sobretudo em face do início do ano letivo, peço a V. Excia. A gentilesa de encaminhar, tendo em vista uma solução urgente, o pedido de comissionamento, que se impõe (comissionamento com prejuiso de vencimentos, a partir de 1° de março corrente), e de renovação do contrato (a partir de 1° de janeiro de 1955).
Em 1957 o Prof. Soukup completava uma década de trabalho como Professor da USP, cônscio de seus deveres e obrigações, leal, amigo, desprendido de todo bem material, colaborando com todos, ajudando este e aquele, e – coisa curiosa! – com cem por cento de assiduidade! Não deu nenhuma falta sequer ao serviço nesses 10 anos, mesmo andando de ônibus e bondes, pois não tinha carro. Essa assiduidade levou até o fim de sua carreira.
No final do ano de 1957 é feito novo pedido de contrato:
Ao propor essa renovação de contrato, por mais três anos e, se possível, em bases financeiras melhores, só me cabe afirmar sua imprescindível necessidade, sob pena de sermos forçados a retirar do currículo do Curso de Geografia a disciplina de Cartografia. Não exagero, senhor Diretor, ao declarar que, atualmente, é o Prof. João Soukup o único a dar, em nível superior, um curso de Cartografia, dentro das fronteiras do Estado. Comprovando esta afirmativa, basta lembrar que leciona ele tal matéria em nossa Faculdade, ainda nas Faculdades de Filosofia “Sedes Sapientiae”, de São Bento e de Sorocaba.
Além de não faltar às aulas e reuniões, de lecionar em cinco cursos superiores, de ministrar aulas de campo e preparar, dedicada e conscienciosamente, suas aulas dos cursos de graduação, arranjava tempo para preparar material inédito para exposições, como a que se realizou em Ribeirão Preto – SP, em julho de 1954.
Nada melhor do que transcrever o que se acha gravado nos Anais da Associação dos Geógrafos Brasileiros, vol. VIII, tomo I, 1956, página 35, sobre essa exposição:
As realizações do cartógrafo Soukup constituem, sem dúvida, uma nota de relevo pela obra pessoal, realmente admirável, sintetizada nos seguintes pontos:1. é um trabalho em grande parte original e de acordo com as modernas correntes da Cartografia representativa; 2. é de uma clareza extraordinária e, além disso, altamente didática; 3. guarda em seu conteúdo cartográfico, uma verdadeira obra de arte; 4. não sòmente trata dos símbolos convencionais cartográficos, como também, dá solução a vários problemas, indicando métodos e até instrumentos utilizados na representação gráfica e cartográfica; 5. finalmente, chama a atenção pela variedade e pela qualidade. A quantidade e, mais do que isso, a qualidade do material exposto pelo conhecido cartógrafo Soukup, desperta a atenção de quem quer que visite a exposição. Sem insistir em elogios, que são óbvios, esta Comissão toma a liberdade de fazer ao Sr. Soukup algumas sugestões, tais como: a. publicar um ou vários trabalhos seriados, configurando um verdadeiro curso de Cartografia representativa; b. iniciar o curso com a explicação dos processos e métodos de representação cartográfica, e tratar de divulgar sua obra em instituições docentes. 6. Nenhuma dúvida existirá de que, sem o elemento humano classificado, nada se poderia fazer para o sucesso da ”Exposição de Geografia e Cartografia” que a nossa A.G.B. abre aos olhos e ao espírito da nobre Ribeirão Preto.
Ribeirão Preto, 23 de julho de 1954.
Ass. Jorge Chebataroff, Tabajara Pedroso e Lafayette Pereira Guimarães, Relatores.
Capítulo VI
- O início da tormenta
Ao ser chamado para assinar novo contrato referente aos anos de 1958 e 1959, um fato bastante curioso motivou sua manifestação em carta admiravelmente simples, datilografada em papel pautado dirigida ao Dr. Ary França, então Diretor do Departamento de Geografia, aos 2 de maio de l958. Assim dizia:
Chamado pela Seção de Pessoal para assinar o meu contrato em prorrogação, – ontem, digo hoje, 2 de maio de 1958, isto é, depois de 8 meses de preparo – não me foi passível firmar esse documento por estarem nele incluídas obrigações que nunca fizeram parte das tarefas atribuídas ao cargo para que fui contratado.
Depois de lecionar Cartografia neste sempre bem orientado Departamento por mais de 11 anos, são exigidas de mim no referido contrato, atividades que a meu ver nada tem em comum com a ocupação de ensinar a matéria de Cartografia. No contrato querem me obrigar a colaborar com a Associação dos Geógrafos Brasileiros, que é uma instituição a que tenho a honra de pertencer, mas que por decreto algum está ligada ao Departamento. Exigem de mim colaborar na obra de uma Geografia do Brasil, que é uma empresa muito louvável, nobre e necessária mas, mesmo assim, não é uma tarefa oficial do Departamento e pelo contrário impulsada pelo comércio de livros. Acho que não é justo obrigarem-me a uma colaboração.
Também na parte das obrigações fala-se do meu trabalho particular da elaboração de uma obra que pretendo denominar “Aulas de Cartografia”, exigindo uma finalização desse trabalho.
Permita-me o Sr. declarar-lhe que nunca alguem se interessou por esse trabalho meu, pelo que “eu” estou realizando nas minhas já raras horas disponíveis, sem ajuda nem estimulo de ninguém do Departamento; pelo contrário notei sempre uma certa reserva quando por acaso falei a alguém deste trabalho. Agora, repentinamente, na clausula que trata das atividades do contratado, aparece referência a esse trabalho como si fosse uma tarefa iniciada em atenção a um convite oficial.
O referido contrato dava ao Prof. Soukup toda a razão. Vejamos o trecho:
[…] Sr. João Soukup para exercer a função técnica e didática de Auxiliar de Ensino devendo ter a seu cargo: aulas de Cartografia do Departamento de Geografia, elaboração final do Manual de Cartografia, colaboração à Associação dos Geógrafos Brasileiros bem como à grande Geografia do Brasil, em 5 volumes, obra coletiva em fase de execução sob a direção do Prof. Aroldo de Azevedo, junto à Faculdade de Filosofia Ciências e Letras.
Aqui fica uma incógnita: qual o interesse pela obra de caráter particular do Prof. Soukup? Será que o Departamento de Geografia estava querendo estimular a sua produção cartográfica, colocando um prazo determinado para que fosse terminado o fabuloso curso intitulado “Aulas de Cartografia?” Ou será que, na falta de quem desenhasse tão bem, com grande cuidado gráfico e com acurada precisão matemática, se tentasse assegurar a presença do mestre em tão importante obra como a “Geografia do Brasil”?
De outro lado, pode-se também inferir que, diante da falta de formação universitária, o corpo docente tentasse – até subconscientemente, talvez – colocar o Prof. Soukup numa posição de inferioridade, obrigando-o a trabalhos meramente técnicos, para os quais, aliás, possuía admirável habilidade. Fica aqui a dúvida, à procura de maiores esclarecimentos.
A cláusula foi corrigida aos 12/5/1958, e o contrato assinado, cabendo ao Prof. Soukup as aulas teóricas, as aulas práticas de gabinete e as aulas práticas de campo.
Capítulo VII
- No olho do furacão
No ano de 1960 se iniciou o que podemos chamar de “grande pesadelo” do Professor João Soukup. Pela Lei 5588 de 27/1/1960, reclassificadas as funções docentes, o Auxiliar de Ensino passaria a ser Assistente Extranumerário, desde que apresentasse o diploma de curso superior. Depois de muitos pareceres técnicos e de muito tempo se passar sem que ele pudesse ministrar suas aulas de Cartografia na USP, concluiu-se, em 20/6/1962, com aval do Departamento Estadual de Administração, que o Prof. Soukup poderia escolher uma das situações, pois já tinha adquirido Estabilidade no Serviço Público. No entanto, somente no ano de 1963 (aos 9 de outubro), devido aos trâmites legais muito demorados, pode reassumir suas funções de Auxiliar de Ensino.
Porém, durante esses anos de incertezas, o Prof. Soukup denota, em carta por ele redigida e abaixo transcrita, sua angústia por não poder mais ministrar as aulas de Cartografia, para as quais fora convidado em 1947. Colocando um fim a essas incertezas, sua aposentadoria foi publicada em 28/2/64. A carta a seguir documenta os últimos anos de sua vida funcional:
São Paulo, 5 de setembro de 1960
Senhor Diretor.
No mês passado fui informado pelo sr. chefe da secção de pessoal de nossa Faculdade que meus vencimentos (julho 1960) não poderiam ser pagos em virtude das dúvidas que existem a respeito do cargo que ocupo por contrato (em vigor) por não apresentar título universitário. O curriculum que apresentei logo que fui comissionado junto ao Departamento de Geografia em 1947, explica claramente o meu preparo para a atividade de transmitir noções de Cartografia a futuros professores de Geografia, o que aliás já faço há 14 anos no Deptº, sem que alguém me julgasse incompetente.
Apezar de ter dedicação profissional para com a Cartografia nunca mostrei ambições exageradas em relação a progresso posicional e econômico fora das melhorias oferecidas dentro de movimentos gerais do funcionalismo. Nem me mostrei amargurado quando em 1950, proposto e aprovado pela egrégia Congregação da Faculdade o meu aproveitamento como professor contratado de Cartografia, tal proposta não se realizou apezar do parecer favorável que apresentou ao egrégio CTA o ilustre prof. Catedrático Dr. Fernando de Azevedo, então relator.
Agora, 10 anos depois, acho-me embaraçado por um fato de que se tinha conhecimento desde há 14 anos. Escolas profissionais públicas para formar cartógrafos existem apenas desde 1935 e aqui refiro-me a paízes europeus e a instalação de cursos para a formação de cartógrafos de nível universitário é um acontecimento recente (1955).
A minha formação – conto hoje 63 anos de idade e dos quais vivi 40 anos no Brasil – realizou-se em época mais remota e, como disse no curriculum, ainda não em escola civil pública; é uma instrução militar a base das minhas habilidades gráficas e dos conhecimentos cartográficos.
Convidado em 1943 pela Diretoria da Escola Superior de Filosofia “Sedes Sapientiae” em São Paulo para organizar aulas de Cartografia, estou desde então, já há 17 anos, dando estas aulas, considerando-me esta e outras Faculdades Paulistas, onde organizei o curso de Cartografia, como seu professor contratado sem dificuldades com relação a observância de seus regulamentos. No Brasil não há escolas profissionais nem superiores públicas ou particulares que formem cartógrafos no sentido tradicional e de conceito internacional. A ciência cartográfica que hoje é um fato consumado, não se radicou ainda de forma íntregra no Brasil. Conhecimentos gerais de Cartografia são indispensáveis aos professores de Geografia e se o destino me colocou em situação de ensinar tal matéria e me permitiu conseguir algum sucesso – baseando-me na continuidade de lecionar 17 anos e na ausência de uma crítica desfavorável à minha orientação e organização das aulas de Cartografia, destinadas exclusivamente a futuros professores de geografia – peço a VS intervir em meu caso para que seja poupado da humilhação inaceitável de uma postergação não merecida na fase atual da nova regulamentação dos postos de magistério ordenada pelo atual Governo. Os meus vencimentos corresponderam sempre aos de primeiro assistente porque estava e estou encarregado de ministrar uma disciplina com autonomia didática, razão porque peço-lhe também conservar-me uma posição que corresponde à matéria à responsabilidade exercida.
Esperando poder contar com a sua benevolente atuação perante à egrégia CTA e o Magnífico senhor Reitor com relação ao exposto, sou a seu inteiro dispor, atenciosamente
João Soukup.
Ao Exmo. Sr. Prof. Dr Paulo Sawaya
DD. Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo
Aos 6 de setembro de 1960, o Professor Aroldo de Azevedo encaminha o pedido para a contratação do Prof. Soukup como Assistente Extranumerário, subscrevendo-o integralmente, por ser da mais absoluta justiça.
A Secção do Pessoal, aos 5/10/1960, informa que a condição para ser Assistente Extranumerário está expressa no artigo 19 e seu parágrafo, “parecendo, salvo melhor juízo, não ser o caso do Prof. João Soukup, o qual, infelizmente, não pode provar ter concluído curso superior”.
Em novembro, nova proposta do prof. Ary França para a recontratação do Prof. Soukup, pelo prazo de três anos. Porém, o texto desse ofício é simples e frio:
Peço vênia a V. Exa. para encarecer a necessidade de um andamento rápido ao meu pedido, para que não venham a sofrer descontinuidade os serviços didáticos e técnicos que presta a este Departamento o Professor João Soukup.
Em fevereiro de 1961, é publicado o afastamento do Prof. Soukup da Procuradoria por 1.095 dias, o correspondente à contratação por três anos. Mas o contrato não se efetiva e o Prof. Soukup é impedido de ministrar as aulas de Cartografia.
De acordo com sua família, aquele mês de março foi um inferno para o Prof. Soukup; ele não acreditava que serviu durante tantos anos e agora não servia mais… Os alunos também ficam aturdidos e sem saber dos detalhes referentes à proibicão de lecionar que recaiu sobre o mestre muito querido, e publicam, em jornal mural, no Departamento de Geografia, uma série de elogios à sua pessoa e ao seu trabalho incansável.
O Prof. Soukup – e disso somos testemunhas oculares –, ao tomar conhecimento dessa manifestação a seu favor feita pelos seus alunos, fica muito nervoso, como nunca o havíamos visto antes! Vai ao quadro mural, arranca e amassa o papel da manifestação, dizendo: “Vocês não deveriam ter feito isto! Agora as coisas podem complicar mais ainda!”
Em seguida vai para sua sala. Depois, em casa, conforme relato da família, muito aborrecido e enormemente magoado, diz que estava tudo acabado e que seria difícil voltar a lecionar na USP. Imaginava que tinha amigos de longos anos, e que esses amigos haviam se voltado contra ele.
Capítulo VIII
- A indiferença pesa mais do que as contribuições
Mesmo se sentido traído e abandonado, o Prof. Soukup não desiste facilmente. Elabora um enorme memorial e o encaminha ao Diretor da Faculdade, Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri. Oficia ao Prof. Dr. Ary França, no dia 12/4/1961, nestes termos:
Peço a Vs. a gentileza de enviar ao sr. Diretor da Faculdade o memorial junto, que elaborei para trazer ao conhecimento das autoridades superiores alguns detalhes da minha atividade durante 14 anos junto a este renomado Departamento de Geografia para que possam julgar si os atos governamentais que provocaram o meu afastamento da cátedra cartográfica podem ser modificados para o bem da Cartografia no Departamento e em favor da minha reabilitação.
Peço que Vs. como Diretor do Departamento algumas palavras favoráveis ao meu pedido de reconsideração.
Com toda estima
João Soukup.
O encaminhamento é feito nos seguintes termos:
São Paulo, 14 de abril de 1961
Senhor Diretor
Tendo o Sr João Soukup, cujo processo referente à modificação nas condições em que se acha contratado nesta Faculdade, encaminhado por meu intermédio uma exposição dirigida a V. Excia. com considerações sobre o que o interessado entende ser uma injustiça, cumpro o dever de encaminhar a essa D. Diretoria, a referida exposição. Reitero a V. Excia meus protestos de alta estima e distinta consideração.
Prof. Ary França
Diretor do Departamento de Geografia
Note-se que houve uma mudança no tratamento em relação ao Professor João Soukup: em vez do termo “Professor”, pelo qual era designado, foi usado um simples “Sr”. Além disso, o Prof. Ary França, que o enaltecera anteriormente, não se empenha minimamente em defendê-lo, como se ele próprio não considerasse injusto o tratamento dado ao colega.
Segue-se, na íntegra, o memorial redigido pelo Professor João Soukup.
Ao prof. Dr. Mário G. Ferri
Mui Digno Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da U.S.P.
Atingido em minha atividade como encarregado das aulas de Cartografia junto ao Deptº de Geografia da U.S.P. pela aplicação rigorosa dos termos de uma lei recente, fui impedido, de um dia para o outro, depois de 14 anos, a lecionar a matéria cujo ensinamento edifiquei como disciplina nos cursos de Geografia em várias Faculdades Paulistas.
Não estando convencido de que meu caso deva ser tratado igualmente que outros, originados pela mesma lei, dirijo-me a V. Ex. com as presentes linhas, pedindo que se digne verificar a razão dos meus argumentos e intervir em meu favor junto às autoridades, por tratar-se de um caso fora do comum, esperando eu um julgamento justo e humano oferecendo o que segue:
Quando em 1947 fui convidado pelo Departamento a organizar um curso de “Elementos de Cartografia“ idêntico ao que dava na Faculdade “Sedes Sapientiae” declarei, logo no início, que não poderia provar por documentação a minha formação como cartógrafo – topógrafo, pois isto se deu durante a Guerra de 1914 na escola campal militar na Albânia e na retirada precipitada, depois do armistício em 1918, perdeu-se tudo, uma vez que na ocasião interessava só salvar a vida. Por isso ficou em branco, na minha ficha pessoal, a parte que cabe ao título.
Um título meu do qual de fato possuo documento é o de contador, o que estudei antes da Guerra de1914. Durante o período de 1947 a 1960, o Deptº me conservou sem interrupção como docente das aulas de Cartografia com várias denominações de cargo, mas com completa autonomia didática, e só agora com a reforma das categorias dos professores e assistentes fui deposto, por meio de uma comunicação verbal dos professores do Deptº, da minha função de docente, mesmo com um contrato ainda em vigor.
Deixam-me assim a escolha entre a volta para minha repartição mater ou continuar numa posição degradante tanto perante o corpo docente e discente como perante todo o Deptº e mesmo a Faculdade.
Alegações anteriores em favor de minha especialidade e capacidade, mencionadas constantemente na elaboração dos vários contratos, vizando a continuidade do ensino da matéria aos alunos, agora são postas de lado devido a uma convicção de sua inutilidade.
Com a fria atenção a uma determinação legal que em casos normais é justificada, destroe-se quase tudo o que em 18 anos de magistério pacífico se organizou e trabalhou em prol da Cartografia, que é uma muito antiga arte e muito nova ciência independente.
No meu último artigo “Uma Aula Inaugural de Cartografia no Curso Universitário” publicado no Anuário da Faculdade “Sedes Sapientiae” de 1958, procurei fazer conhecer e justificar a orientação das aulas sobre noções de Cartografia para as necessidades de um professor- geógrafo.
No Brasil, onde o progresso tem um lar, cuidado forçosamente como um país em evolução, não há ciência que não se ensine, exceto a Cartografia. Há engenheiros e geógrafos formados, mas não há cartógrafos. Não há escolas profissionais públicas, nem universidades que formem o cartógrafo segundo o conceito tradicional e internacional. Também na Europa é recente esse estudo em curso público. E ainda hoje, em certas repartições e empresas cartográficas continuam a formar os seus cartógrafos dentro do seu âmbito, o que se deu também comigo. Inútil me parece agora todo o meu trabalho de longos anos e justamente quando queria concluir trabalho de provável utilidade, fico sabendo da minha destituição, que indiretamente resulta numa desmoralização oficial da competência profissional da minha pessoa o que não posso aceitar indiferente, tendo em vista meus trabalhos já feitos, que a contra-gosto sou obrigado a mencionar em minha defeza.
Desde 1947 estive dando aulas de Cartografia, sempre sob o regime de autonomia didática, perfazendo um total de 1733 aulas de fato dadas, ministrando esse volume a cerca de 570 alunos, hoje professores secundários e até universitários. Desde a primeira aula até a última em novembro de 1960, cuidei pessoalmente dessas aulas em regime de tempo parcial, sem auxilio de outrem.
Fui organizador das aulas de Cartografia em mais de quatro Faculdades Paulistas nos seus cursos de Geografia. Há 18 anos que leciono Cartografia na Faculdade “Sedes Sapientiae” o que se tornou para mim, como disseram, um tílulo valioso.
Sou autor de dois Mapas-Mundi azimutais, um de São Paulo, e outro de Porto Alegre; o primeiro que foi editado pela Universidade de São Paulo, é uma obra de certa utilidade para a geografia, aviação, radiotelegrafia e, como provam os constantes pedidos pela “Escola Superior de Guerra, é também de importância nacional. O Magnífico Reitor em exercício em 1949 honrou-me com uma carta expontânea, como também o fez o então sr, Governador, reconhecendo a competência provada por este mapa.
Sou o autor de um coleção de mais de 60 quadros murais didáticos e originais que já figuraram em 3 exposições relacionadas a reuniões geográficas, e que tornaram-se indispensáveis para o bom êxito nas aulas.
Escrevi diversos artigos, publicados em revistas e anuários importantes, a respeito da matéria cartográfica, de valor didático e de críticas sobre o tratamento da Cartografia no país. Desde 1949 estou também trabalhando numa obra sobre a Cartografia Geral, idealizada como coleção de pranchas, de desenho técnica e cientificamente aprimorado e das 25 pranchas planejadas, 21 já estão concluídas.
Não posso me conformar com a resolução tomada a meu respeito de, aceito há já 14 anos como professor de Cartografia, ser agora desclassificado por uma lei num efeito retroativo e prejudicial a um cidadão que foi o realizador pioneiro de uma disciplina que sempre figurou no curriculum do curso de Geografia, mas que nunca antes chegara a ser lecionada por falta de professor competente.
Não sei se é necessário e útil diminuir o prestígio de um homem que, contando já 25 anos de serviço público, destes dedicou 14 em lecionar uma matéria muito especial, como auxiliar de ensino, preenchendo uma lacuna no professorado que, por anos ainda, será difícil sanear com um competente profissional.
Junto em anexo certas provas a respeito de minha atividade passada no Departamento de Geografia e chegando ao fim dos meus indispensáveis esclarecimentos peço a V. Ex. por uma mais justa e menos deprimente solução, ouvindo, por ser para mim uma questão vital, a Egrégia Congregação da Faculdade da qual tomam parte professores que me conhecem de longos anos e outras autoridades, capazes de transformar essa degradação ordenada e não merecida nos últimos anos de serviço público, em reconhecimento de trabalhos prestados.
Peço que seja levantada a proibição de eu dar aulas, restabelecendo assim minha reputação atingida como profissional, atendendo a um provérbio de que “não há regra sem exceção”.
Respeitosamente
João Soukup
São Paulo, 11 de abril de l961
Nesse ano de 1961, o Professor Soukup já não ministrou nenhuma aula. Foi, de sua parte, um ano de tentativas, todas em vão, para reverter a situação de proibição do magistério. Disseram a ele que poderia, sim, dar aulas, mas não poderia assinar pelas aulas dadas. Isso é o que entendia por situação degradante, como colocado em seu memorial. E o que o abalou muito, pois ele foi o criador da disciplina, em 1947!
De uma hora para outra, se viu alijado da cátedra, que considerava profissão das mais honrosas. De uma hora para outra, podemos afirmar, foi posto de lado, “como uma vassoura velha”. Criara os programas, atualizava-os de acordo com as necessidades do corpo discente e docente, buscava bibliografia moderna e, ainda, sem que fosse sua atribuição, mas por empatia aos colegas, desenhou de maneira primorosa para quase todos os professores do Departamento de Geografia – e outros mestres – sendo sempre elogiado e prestigiado. Basta ver as belíssimas e exatas ilustrações na obra dirigida pelo Professor Aroldo de Azevedo, catedrático de Geografia do Brasil da FFCL da Universidade de São Paulo, intitulada A Cidade de São Paulo: Estudos de Geografia Urbana, em quatro volumes (1958, coleção Brasiliana, série Grande Formato, vol. 14, com 1300 páginas e 250 ilustrações). Nessa obra, uma coletânea de artigos de diversos autores, o Prof. Soukup foi o responsável pela parte cartográfica. Todos os trabalhos realizados pelo Prof. Soukup para essa obra estão neste site, na aba “A Cidade de São Paulo”.
Recebemos do Prof. Aroldo de Azevedo o livro comemorativo do lançamento dessa grande obra (hoje considerada obra rara), com a assinatura de quase todos os autores de artigos, constando os capítulos que escreveram e a data de suas assinaturas. Consta, ainda, desse livro, a assinatura de um desenhista, de diretores da Companhia Editora Nacional e da gráfica São Paulo Editora S.A.
Outra obra de Aroldo de Azevedo que Soukup ilustrou com dois cartogramas primorosos foi O Brasil, a Terra e o Homem, publicado pela Editora Nacional. Para esse mesmo autor, o Prof. Soukup redesenhou todos os trabalhos gráficos dos seus 8 livros didáticos, inclusive as capas, algumas das quais seguem aqui. Para essa tarefa, produziu mais de 600 ilustrações.
Seguem também algumas das 600 ilustrações desses livros didáticos, depois colorizadas por Aroldo de Azevedo, para edições mais atualizadas.
As ilustrações que foram feitas em preto e branco, posteriormente, com a modernidade das impressões, precisaram ser coloridas. O Prof. Aroldo de Azevedo, por não poder mais contar com João Soukup, visto que ele já não estava entre nós, coloriu ele mesmo, em uma folha de papel de seda sobreposta aos mapas, como mostramos a seguir:
Além disso, o prof. Aroldo também retirou as molduras dos desenhos, como forma de integrá-los melhor aos textos escritos.
O Prof. Soukup ainda produziu trabalhos gráficos para a obra Regiões e Paisagens do Brasil, também de Aroldo de Azevedo, publicado pela Editora Nacional.
Elaborou um longo verbete sobre Cartografia para a Enciclopédia Barsa (pág. 102 a 115), uma das mais importantes enciclopédias em circulação no Brasil por várias décadas. Também criou o símbolo da Revista de História da USP, usado até 2018 em suas capas.
Para o Boletim Paulista de Geografia, além de sua capa, produziu artigos seus e inúmeros cartogramas para ilustrar artigos de seus colegas.
Também criou o símbolo da Revista de História da USP, usado até 2018 em suas capas. De acordo com o Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, diretor do Departamento de História da USP no ano de 1974, o desenho representa o meridiano de Tordesilhas e a expansão bandeirante. Foi inspirado na moeda de 400 réis cunhada em 1932, em homenagem ao 4º centenário da cidade de São Vicente, SP.
Produziu, além do premiado Mapa Mundi em projeção azimutal, obliqua e equidistante com centro em São Paulo, editado pela USP, outros dois semelhantes, porém, tendo como centro as cidades de Porto Alegre (RS) e Rio de Janeiro (este, para o estudo da prancha XIX, que consta do Curso de Cartografia, neste site). Esses dois últimos mapas ainda são inéditos.
Escreveu artigos para o Anuário da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae e para o Boletim Geográfico do Rio Grande do Sul.
Fez também desenhos ilustrativos para capas de romances, como os que se seguem:
Poderíamos citar ainda inúmeros trabalhos do Prof. Soukup, todos com precisão e beleza, mas voltemos à ideia principal e à pergunta que fica em nossa mente: como pode, o Departamento de Geografia, abrir mão de um Professor tão capacitado, sem que houvesse outro à altura para substituí-lo?
O memorial do Prof. Soukup teve como relator o Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, que o encaminhou para a Congregação:
O Prof. João Soukup apresenta uma representação contra o que ele chama destituição de suas funções didáticas no Departamento de Geografia.
Como ex-diretor desta Faculdade tive de lutar muitas vezes no Conselho Universitário pela renovação de seu contrato, pois faltava sempre no processo um diploma de curso superior de Cartografia do interessado. Com grande dificuldade era o pedido da Faculdade atendido. Agora existe uma legislação específica que exige o referido diploma e nestas condições não pode ele mais lecionar. Deve-se dizer, entretanto, que ninguém ignora e ninguém nega o valor do Prof. Soukup como cartógrafo. Infelizmente a sua representação, a meu ver, não pode ser resolvida pelo C.T.A., devendo ser levada ao conhecimento da Congregação como solicita o interessado.
Salvo melhor juízo é o meu parecer.
São Paulo, 6 de maio de 1961.
Epílogo
Cinco meses depois, aos 27/10/1961, o Prof. Ary França, Diretor do Departamento de Geografia, envia uma carta ao Diretor da Faculdade de Filosofia que, em termos bastante rígidos, coloca um ponto final na carreira do Prof. João Soukup dentro da Universidade de São Paulo. Eis a íntegra do documento:
Ao encaminhar a V. Excia., como pede o Senhor João Soukup, um memorial por ele dirigido ao Magnífico Reitor da Universidade, devo reiterar que o Departamento de Geografia não deseja nem pedirá, em hipótese alguma, a renovação do contrato em que se achou aquele Agrimensor da Secretaria de Justiça do Estado, como encarregado das aulas de Cartografia – como já tivemos ocasião de comunicar a V. Excia., por ofício de 18 de setembro do corrente ano, de que anexamos a este uma cópia.
Como é também, do conhecimento de V. Excia., já solicitamos a contratação de Professor italiano para a regência do referido curso e esperamos, sob a orientação de especialista altamente qualificado, a renovação do ensino daquela disciplina nesta casa, pois não interessa ao Curso de Geografia a orientação não atualizada e não didática, à base de desenho cartográfico, que até o último ano vinha sendo dada pelo interessado, Senhor João Soukup, às aulas de Cartografia destinadas à formação de Geógrafos. A medida – legal que impediu o Senhor Soukup de continuar em função docente na Universidade de São Paulo, nada mais fez do que antecipar uma providência que nós mesmos, os Professores de Geografia desta Faculdade, iríamos tomar e que, tanto o Curso de Geografia como os próprios estudantes estavam reclamando: a substituição do Encarregado das aulas de Cartografia.
Não sabemos o que se passou nos últimos cinco meses. O ex-Professor – agora “Senhor” Soukup, ou ainda o “Encarregado das aulas”, qualificativos que substituem o significado do título “Professor” e insinuam a inferioridade do profissional, comparados com o antigo tratamento – de acordo com as informações obtidas junto à família, cumpriu todos os seus horários, pois ainda estava contratado e não era do seu feitio faltar aos compromissos. Talvez a sua presença, agora incômoda, indesejável e constrangedora, tenha dado origem à carta do Prof. Ary França, tão dura, humilhante e eivada de ingratidões.
No dia 15 de novembro de 1961 o Prof. Soukup redige outro memorial e solicita que seja anexado a uma carta que pedia o corte de sua gratificação pelo trabalho no período noturno:
Prezado Senhor.
Em dia do mês passado fui convidado pela Secção do Pessoal a tomar conhecimento de um ofício e respectivo despacho, em que o Dept° de Geografia propuzera o corte de minha gratificação por aulas noturnas, proposta essa com que VS. se dignou concordar, baseando-se nos argumentos apresentados para fundamentar o pedido, argumentos esses que, felizmente para mim, não correspondem à realidade.
Declaro nesta oportunidade que nunca recusei colaborar em trabalhos de interesse do Dept° e muito menos ainda negar a minha experiência e capacidade profissional para a realização do planejado ATLAS DE SÃO PAULO, que uma cadeira do curso de Geografia tenta editar.
Por diversas vezes fiz estas declarações ao Dept° e ainda no dia 15 de maio de 1961 pedi, por bilhete ao prof. Ary França, orientação sob o modo por que poderia ajudar, enquanto aguardava uma solução justa para o caso do meu afastamento do ensino de Cartografia. Não concordei foi com a imposição de assinar condições de alteração do meu contrato de docente, o que equivaleria a um suicídio como professor de Cartografia, depois de 14 a 19 anos de ensino e progressivo trabalho construtivo, respectivamente no Dept° e em outros institutos universitários.
Em 22 de junho pp. O Dept°, representado por três professores catedráticos, negou-se verbalmente a atender a um memorial que lhe dirigi para comunicar novos fatos favoráveis à minha situação e pedir um apoio neste sentido.
Nessa reunião, depois de longa conversa infrutífera, na qual tornei a oferecer a minha colaboração, DESDE SE MANTIVESSE minha CONDIÇÃO DE DOCENTE, o prof. Ary França como diretor, na presença dos professores Aroldo de Azevedo e João Dias da Silveira, DECLAROU que o Dept° HAVIA RESOLVIDO NADA PEDIR DE MIM e que eu deveria continuar a esperar.
Apesar dessa declaração, continuei a procurar o Dept° em dias alternados, esperando encontrar sobre a mesa qualquer aviso ou instrução para poder servir e, mesmo no período noturno, não deixei de comparecer o suficiente para evitar críticas.
Sinto-me no Dept° como um banido, evitando encontros e conversas inúteis e contraproducentes com as pessoas que conseguiram, ao que parece por autoridade própria, afastar-me das aulas e agora, efetuar cortes nos meus vencimentos.
Peço a VS. a justiça de se fazer juntar o presente memorial à carta em que se pediu o corte da minha gratificação pelo período noturno, uma vez que os termos em que foi redijida são injustamente prejudiciais à minha folha de conduta de funcionário público, com mais de 25 anos de serviço, até agora não maculada por qualquer ínfima observação que desabone minha pessoa.
Certo do atendimento deste pedido, assino-me, com todo o respeito
João Soukup, aux. de ensino contratado para dar aulas de Cartografia
Esse memorial (como assim o Prof. Soukup chamava a documentação que apresentava) deixa transparecer sua grande mágoa. Afinal, depois de iniciar uma carreira de Professor Universitário, que considerava “a mais honrosa”, trabalhar muito, produzir excelentes obras, ser elogiado por Reitores, por Governadores, ser reconhecido como um ótimo Professor e cartógrafo nos congressos e exposições de que participou e, depois de toda essa trajetória, depois de sua desmedida dedicação (vê-se, por exemplo, pelas horas em que trabalhou na pesquisa e produção de suas pranchas e murais didáticos para as aulas), receber, oficialmente, um tratamento humilhante (nos ofícios e comunicados do Departamento de Geografia), após quase 20 anos de carreira, é, com certeza, por demais doloroso.
Cronograma final
- 23/3/1962 – volta a assumir seu cargo no Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado de São Paulo, pois cassaram parte de seu último afastamento de três anos.
- 7/7/1962 – é declarado “Estável” no Serviço Público;
- 31/3/1963 – completa 30 anos de serviço público;
- 9/10/1963 escolhe optar pela função de “Auxiliar de Ensino” no Estado de SP;
- 28/2/1964 é aposentado.
Aos 19 de dezembro de 1967, o Prof. Soukup arrumou seu material para ir à cidade de Santos, a fim de ministrar a última prova do ano aos alunos da Faculdade Católica. Um colega ofereceu-lhe carona, mas o Prof. recusou a oferta, pois um de seus maiores prazeres era apreciar a paisagem da estrada de ferro mais longa (Sorocabana) que descia a serra do Mar suavemente, beirando um paredão escarpado e apresentando, em seu lado oposto, o verde da vegetação exuberante da serra, visões que lhe traziam lembranças de sua terra Natal, na Europa. Tomou o trem e, apreciando a vista que lhe era cara, pela janela do vagão, adormeceu, placidamente, para sempre…




































































