Capítulo VIII
Mesmo se sentido traído e abandonado, o Prof. Soukup não desiste facilmente. Elabora um enorme memorial e o encaminha ao Diretor da Faculdade, Prof. Dr. Mário Guimarães Ferri. Oficia ao Prof. Dr. Ary França, no dia 12/4/1961, nestes termos:
Peço a Vs. a gentileza de enviar ao sr. Diretor da Faculdade o memorial junto, que elaborei para trazer ao conhecimento das autoridades superiores alguns detalhes da minha atividade durante 14 anos junto a este renomado Departamento de Geografia para que possam julgar si os atos governamentais que provocaram o meu afastamento da cátedra cartográfica podem ser modificados para o bem da Cartografia no Departamento e em favor da minha reabilitação.
Peço que Vs. como Diretor do Departamento algumas palavras favoráveis ao meu pedido de reconsideração.
Com toda estima
João Soukup.
O encaminhamento é feito nos seguintes termos:
São Paulo, 14 de abril de 1961
Senhor Diretor
Tendo o Sr João Soukup, cujo processo referente à modificação nas condições em que se acha contratado nesta Faculdade, encaminhado por meu intermédio uma exposição dirigida a V. Excia. com considerações sobre o que o interessado entende ser uma injustiça, cumpro o dever de encaminhar a essa D. Diretoria, a referida exposição. Reitero a V. Excia meus protestos de alta estima e distinta consideração.
Prof. Ary França
Diretor do Departamento de Geografia
Note-se que houve uma mudança no tratamento em relação ao Professor João Soukup: em vez do termo “Professor”, pelo qual era designado, foi usado um simples “Sr”. Além disso, o Prof. Ary França, que o enaltecera anteriormente, não se empenha minimamente em defendê-lo, como se ele próprio não considerasse injusto o tratamento dado ao colega.
Segue-se, na íntegra, o memorial redigido pelo Professor João Soukup.
Ao prof. Dr. Mário G. Ferri
Mui Digno Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da U.S.P.
Atingido em minha atividade como encarregado das aulas de Cartografia junto ao Deptº de Geografia da U.S.P. pela aplicação rigorosa dos termos de uma lei recente, fui impedido, de um dia para o outro, depois de 14 anos, a lecionar a matéria cujo ensinamento edifiquei como disciplina nos cursos de Geografia em várias Faculdades Paulistas.
Não estando convencido de que meu caso deva ser tratado igualmente que outros, originados pela mesma lei, dirijo-me a V. Ex. com as presentes linhas, pedindo que se digne verificar a razão dos meus argumentos e intervir em meu favor junto às autoridades, por tratar-se de um caso fora do comum, esperando eu um julgamento justo e humano oferecendo o que segue:
Quando em 1947 fui convidado pelo Departamento a organizar um curso de “Elementos de Cartografia“ idêntico ao que dava na Faculdade “Sedes Sapientiae” declarei, logo no início, que não poderia provar por documentação a minha formação como cartógrafo – topógrafo, pois isto se deu durante a Guerra de 1914 na escola campal militar na Albânia e na retirada precipitada, depois do armistício em 1918, perdeu-se tudo, uma vez que na ocasião interessava só salvar a vida. Por isso ficou em branco, na minha ficha pessoal, a parte que cabe ao título.
Um título meu do qual de fato possuo documento é o de contador, o que estudei antes da Guerra de1914. Durante o período de 1947 a 1960, o Deptº me conservou sem interrupção como docente das aulas de Cartografia com várias denominações de cargo, mas com completa autonomia didática, e só agora com a reforma das categorias dos professores e assistentes fui deposto, por meio de uma comunicação verbal dos professores do Deptº, da minha função de docente, mesmo com um contrato ainda em vigor.
Deixam-me assim a escolha entre a volta para minha repartição mater ou continuar numa posição degradante tanto perante o corpo docente e discente como perante todo o Deptº e mesmo a Faculdade.
Alegações anteriores em favor de minha especialidade e capacidade, mencionadas constantemente na elaboração dos vários contratos, vizando a continuidade do ensino da matéria aos alunos, agora são postas de lado devido a uma convicção de sua inutilidade.
Com a fria atenção a uma determinação legal que em casos normais é justificada, destroe-se quase tudo o que em 18 anos de magistério pacífico se organizou e trabalhou em prol da Cartografia, que é uma muito antiga arte e muito nova ciência independente.
No meu último artigo “Uma Aula Inaugural de Cartografia no Curso Universitário” publicado no Anuário da Faculdade “Sedes Sapientiae” de 1958, procurei fazer conhecer e justificar a orientação das aulas sobre noções de Cartografia para as necessidades de um professor- geógrafo.
No Brasil, onde o progresso tem um lar, cuidado forçosamente como um país em evolução, não há ciência que não se ensine, exceto a Cartografia. Há engenheiros e geógrafos formados, mas não há cartógrafos. Não há escolas profissionais públicas, nem universidades que formem o cartógrafo segundo o conceito tradicional e internacional. Também na Europa é recente esse estudo em curso público. E ainda hoje, em certas repartições e empresas cartográficas continuam a formar os seus cartógrafos dentro do seu âmbito, o que se deu também comigo. Inútil me parece agora todo o meu trabalho de longos anos e justamente quando queria concluir trabalho de provável utilidade, fico sabendo da minha destituição, que indiretamente resulta numa desmoralização oficial da competência profissional da minha pessoa o que não posso aceitar indiferente, tendo em vista meus trabalhos já feitos, que a contra-gosto sou obrigado a mencionar em minha defeza.
Desde 1947 estive dando aulas de Cartografia, sempre sob o regime de autonomia didática, perfazendo um total de 1733 aulas de fato dadas, ministrando esse volume a cerca de 570 alunos, hoje professores secundários e até universitários. Desde a primeira aula até a última em novembro de 1960, cuidei pessoalmente dessas aulas em regime de tempo parcial, sem auxilio de outrem.
Fui organizador das aulas de Cartografia em mais de quatro Faculdades Paulistas nos seus cursos de Geografia. Há 18 anos que leciono Cartografia na Faculdade “Sedes Sapientiae” o que se tornou para mim, como disseram, um tílulo valioso.
Sou autor de dois Mapas-Mundi azimutais, um de São Paulo, e outro de Porto Alegre; o primeiro que foi editado pela Universidade de São Paulo, é uma obra de certa utilidade para a geografia, aviação, radiotelegrafia e, como provam os constantes pedidos pela “Escola Superior de Guerra, é também de importância nacional. O Magnífico Reitor em exercício em 1949 honrou-me com uma carta expontânea, como também o fez o então sr, Governador, reconhecendo a competência provada por este mapa.
Sou o autor de um coleção de mais de 60 quadros murais didáticos e originais que já figuraram em 3 exposições relacionadas a reuniões geográficas, e que tornaram-se indispensáveis para o bom êxito nas aulas.
Escrevi diversos artigos, publicados em revistas e anuários importantes, a respeito da matéria cartográfica, de valor didático e de críticas sobre o tratamento da Cartografia no país. Desde 1949 estou também trabalhando numa obra sobre a Cartografia Geral, idealizada como coleção de pranchas, de desenho técnica e cientificamente aprimorado e das 25 pranchas planejadas, 21 já estão concluídas.
Não posso me conformar com a resolução tomada a meu respeito de, aceito há já 14 anos como professor de Cartografia, ser agora desclassificado por uma lei num efeito retroativo e prejudicial a um cidadão que foi o realizador pioneiro de uma disciplina que sempre figurou no curriculum do curso de Geografia, mas que nunca antes chegara a ser lecionada por falta de professor competente.
Não sei se é necessário e útil diminuir o prestígio de um homem que, contando já 25 anos de serviço público, destes dedicou 14 em lecionar uma matéria muito especial, como auxiliar de ensino, preenchendo uma lacuna no professorado que, por anos ainda, será difícil sanear com um competente profissional.
Junto em anexo certas provas a respeito de minha atividade passada no Departamento de Geografia e chegando ao fim dos meus indispensáveis esclarecimentos peço a V. Ex. por uma mais justa e menos deprimente solução, ouvindo, por ser para mim uma questão vital, a Egrégia Congregação da Faculdade da qual tomam parte professores que me conhecem de longos anos e outras autoridades, capazes de transformar essa degradação ordenada e não merecida nos últimos anos de serviço público, em reconhecimento de trabalhos prestados.
Peço que seja levantada a proibição de eu dar aulas, restabelecendo assim minha reputação atingida como profissional, atendendo a um provérbio de que “não há regra sem exceção”.
Respeitosamente
João Soukup
São Paulo, 11 de abril de l961
Nesse ano de 1961, o Professor Soukup já não ministrou nenhuma aula. Foi, de sua parte, um ano de tentativas, todas em vão, para reverter a situação de proibição do magistério. Disseram a ele que poderia, sim, dar aulas, mas não poderia assinar pelas aulas dadas. Isso é o que entendia por situação degradante, como colocado em seu memorial. E o que o abalou muito, pois ele foi o criador da disciplina, em 1947!
De uma hora para outra, se viu alijado da cátedra, que considerava profissão das mais honrosas. De uma hora para outra, podemos afirmar, foi posto de lado, “como uma vassoura velha”. Criara os programas, atualizava-os de acordo com as necessidades do corpo discente e docente, buscava bibliografia moderna e, ainda, sem que fosse sua atribuição, mas por empatia aos colegas, desenhou de maneira primorosa para quase todos os professores do Departamento de Geografia – e outros mestres – sendo sempre elogiado e prestigiado. Basta ver as belíssimas e exatas ilustrações na obra dirigida pelo Professor Aroldo de Azevedo, catedrático de Geografia do Brasil da FFCL da Universidade de São Paulo, intitulada A Cidade de São Paulo: Estudos de Geografia Urbana, em quatro volumes (1958, coleção Brasiliana, série Grande Formato, vol. 14, com 1300 páginas e 250 ilustrações). Nessa obra, uma coletânea de artigos de diversos autores, o Prof. Soukup foi o responsável pela parte cartográfica. Todos os trabalhos realizados pelo Prof. Soukup para essa obra estão neste site, na aba “A Cidade de São Paulo”.
Recebemos do Prof. Aroldo de Azevedo o livro comemorativo do lançamento dessa grande obra (hoje considerada obra rara), com a assinatura de quase todos os autores de artigos, constando os capítulos que escreveram e a data de suas assinaturas. Consta, ainda, desse livro, a assinatura de um desenhista, de diretores da Companhia Editora Nacional e da gráfica São Paulo Editora S.A.
Outra obra de Aroldo de Azevedo que Soukup ilustrou com dois cartogramas primorosos foi O Brasil, a Terra e o Homem, publicado pela Editora Nacional. Para esse mesmo autor, o Prof. Soukup redesenhou todos os trabalhos gráficos dos seus 8 livros didáticos, inclusive as capas, algumas das quais seguem aqui. Para essa tarefa, produziu mais de 600 ilustrações.
Seguem também algumas das 600 ilustrações desses livros didáticos, depois colorizadas por Aroldo de Azevedo, para edições mais atualizadas.
As ilustrações que foram feitas em preto e branco, posteriormente, com a modernidade das impressões, precisaram ser coloridas. O Prof. Aroldo de Azevedo, por não poder mais contar com João Soukup, visto que ele já não estava entre nós, coloriu ele mesmo, em uma folha de papel de seda sobreposta aos mapas, como mostramos a seguir:
Além disso, o prof. Aroldo também retirou as molduras dos desenhos, como forma de integrá-los melhor aos textos escritos.
O Prof. Soukup ainda produziu trabalhos gráficos para a obra Regiões e Paisagens do Brasil, também de Aroldo de Azevedo, publicado pela Editora Nacional.
Elaborou um longo verbete sobre Cartografia para a Enciclopédia Barsa (pág. 102 a 115), uma das mais importantes enciclopédias em circulação no Brasil por várias décadas. Também criou o símbolo da Revista de História da USP, usado até 2018 em suas capas.
Para o Boletim Paulista de Geografia, além de sua capa, produziu artigos seus e inúmeros cartogramas para ilustrar artigos de seus colegas.
Também criou o símbolo da Revista de História da USP, usado até 2018 em suas capas. De acordo com o Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, diretor do Departamento de História da USP no ano de 1974, o desenho representa o meridiano de Tordesilhas e a expansão bandeirante. Foi inspirado na moeda de 400 réis cunhada em 1932, em homenagem ao 4º centenário da cidade de São Vicente, SP.
Produziu, além do premiado Mapa Mundi em projeção azimutal, obliqua e equidistante com centro em São Paulo, editado pela USP, outros dois semelhantes, porém, tendo como centro as cidades de Porto Alegre (RS) e Rio de Janeiro (este, para o estudo da prancha XIX, que consta do Curso de Cartografia, neste site). Esses dois últimos mapas ainda são inéditos.
Escreveu artigos para o Anuário da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae e para o Boletim Geográfico do Rio Grande do Sul.
Fez também desenhos ilustrativos para capas de romances, como os que se seguem:
Poderíamos citar ainda inúmeros trabalhos do Prof. Soukup, todos com precisão e beleza, mas voltemos à ideia principal e à pergunta que fica em nossa mente: como pode, o Departamento de Geografia, abrir mão de um Professor tão capacitado, sem que houvesse outro à altura para substituí-lo?
O memorial do Prof. Soukup teve como relator o Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, que o encaminhou para a Congregação:
O Prof. João Soukup apresenta uma representação contra o que ele chama destituição de suas funções didáticas no Departamento de Geografia.
Como ex-diretor desta Faculdade tive de lutar muitas vezes no Conselho Universitário pela renovação de seu contrato, pois faltava sempre no processo um diploma de curso superior de Cartografia do interessado. Com grande dificuldade era o pedido da Faculdade atendido. Agora existe uma legislação específica que exige o referido diploma e nestas condições não pode ele mais lecionar. Deve-se dizer, entretanto, que ninguém ignora e ninguém nega o valor do Prof. Soukup como cartógrafo. Infelizmente a sua representação, a meu ver, não pode ser resolvida pelo C.T.A., devendo ser levada ao conhecimento da Congregação como solicita o interessado.
Salvo melhor juízo é o meu parecer.
São Paulo, 6 de maio de 1961.



















