Capítulo I

O desenhista e agrimensor João Soukup, recém-chegado de Viena no ano de 1920, já lidava com a Cartografia há muito tempo. Fora cartógrafo do Exército Austro-Húngaro na guerra de 1914-18 (Primeira Guerra Mundial), estudando em Tirana, na Albânia, na Escola Campal de Mapeadores do Exército Austro-Húngaro. Acredita-se que aí aprendeu a fazer todos os tipos de desenhos para uso da guerra: croquis, esboços, cartas para ações militares da infantaria, artilharia e cavalaria, cartas essas que envolviam um perfeito conhecimento de topografia, pois delas dependeria a vida dos companheiros.

Suas habilidades com as cores e o desenho foram primordiais para o seu posto no exército. Com 18 anos, após ter concluído o curso secundário e se dedicado a um curso pedagógico, em virtude da guerra, foi convocado imediatamente, passando quatro anos no campo de batalha na região dos Bálcãs. Nesses quatro anos de vida difícil e perigosa, nasceu a ideia de procurar um lugar melhor para viver. Terminada a guerra, juntou-se a um grupo de amigos que já falavam do Brasil e para cá vieram.

Aqui chegando começou a trabalhar com o que mais sabia fazer: agrimensura. Dedicou-se ao desenho topográfico não recusando, no entanto, nenhum outro serviço gráfico.

Percorreu muitas cidades do interior paulista fazendo plantas de chácaras, loteamentos e todo tipo de trabalho congênere. Dessas épocas de adaptação à nova língua – muito diferente do alemão, ao clima – muito quente em comparação ao que estava habituado – e  aos costumes de um país desconhecido – o Brasil,  a família conseguiu preservar somente um pequeno clichê de metal usado em suas propagandas nos jornais.

Propaganda do trabalho de agrimensura de João Soukup

No clichê temos um mapa da serra de Cubatão onde aparece a hidrografia – o Rio Cubatão ao centro, a escarpa da Serra do Mar em gradação de tons – a estrada de automóvel, atual estrada velha de Santos, hoje interditada até para passeios.

Note-se a ortografia da época e a data: 1925, que marca sua condição de recém-chegado ao Brasil. Naturalizou-se em 1940.   

A língua portuguesa o atrapalhava muito. Era mais fácil a agrimensura do que a escrita, completamente diferente do alemão. Mas ele aprendia o português brasileiro aos poucos, sempre podendo contar com amigos que faziam as revisões dos rascunhos dos seus trabalhos. Nas margens dos rascunhos encontramos, às vezes, palavras escritas, frutos de perguntas feitas a esses amigos colaboradores.

Em 1925 houve uma reforma ortográfica; anos depois, outras reformas. Essas reformas são difíceis para os próprios brasileiros; o que se dizer em relação a um estrangeiro que faz uso da nossa língua!

Assim, sempre com grande esforço, o Prof. João Soukup conseguiu elaborar uma obra que podemos chamar, sem nenhuma dúvida, de magnífica! Os pequenos enganos na escrita – um acento aqui, uma letra ali – criaram um álibi para a identificação dos seus trabalhos, mesmo quando não traziam sua assinatura característica “JS”. O seu estilo é inconfundível, servindo, os errinhos, apenas para confirmação, sem tirar, em hipótese alguma, a grande qualidade das obras.

Na obra Um Trem Corre Para o Oeste: Estudo sobre a Noroeste do Brasil e seu papel no sistema de viação nacional, de Fernando de Azevedo, 2ª ed., publicada pela Melhoramentos como parte das Obras Completas desse autor (n. XII, sem data de publicação), não há assinatura do Prof. Soukup nos oito mapas, nem referências ao desenhista. Mas, insofismavelmente, a autoria é dele, pois seu estilo é inconfundível.

Curiosamente, todas as fontes consultadas só apontam à 2ª edição da obra, de 1958. Não conseguimos saber a data da primeira edição. No entanto, nas orelhas da obra, constam comentários datados de 1950, o que nos leva a crer que esta tenha sido a data da 1ª edição. As fotos aqui apresentadas são, todas, da 2ª edição.

De l920 até l936, João Soukup, anda não professor trabalhou, por conta própria, como agrimensor.  No ano de 1936 foi nomeado agrimensor da Diretoria de Engenharia da Procuradoria do Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado de São Paulo. Para esse cargo eram necessários bons conhecimentos profissionais, grande precisão e seriedade nos trabalhos, pois deles dependeriam os pareceres finais sobre assuntos importantíssimos da Procuradoria.

O trabalho que desenvolveu na Procuradoria ainda não foi examinado em detalhes. Porém, a família preservou o original de um mapa sobre o litoral sul do Estado de são Paulo em que há uma grande riqueza de detalhes e anotações sobre a localização de empreendimentos imobiliários pioneiros naquela área.

Parte de um grande mapa do litoral sul do estado de SP, abrangendo a região de Itanhaém
Parte de um grande mapa do litoral sul do estado de SP, abrangendo a região de Iguape