Capítulo II

Tudo começou no ano de 1943, na Faculdade de Filosofia do Instituto Sedes Sapientiae, atual Pontifícia Universidade Católica de São Paulo que, à época, tinha filiais espalhadas pelo estado. A Reverenda Madre Santo Ambrósio, Diretora da Faculdade, num gesto de grande iniciativa, percebeu que o ensino sobre mapas fazia falta às alunas dos cursos de Geografia e História. As alunas – o colégio era frequentado somente por meninas – desses cursos usavam muitos mapas murais e atlas, pelos quais acompanhavam todas as explicações das aulas desenvolvidas pelos professores especialistas nas diferentes disciplinas.

O problema é que, de acordo com a Madre Santo Ambrósio, as alunas não conseguiam compreender bem as informações que os mapas traziam, ou seja, não conseguiam aquilatar distâncias, entender as legendas, lidar com a orientação, analisar um mapa fisiográfico ou de relevo, de modo a relacionar tudo isso com as diferentes escalas e ainda com os fatos históricos e geográficos. Essa era uma grande falha que havia no currículo!

A Diretora saiu a campo pesquisando e perguntando sobre pessoas que pudessem suprir essa falha curricular, e terminou por encontrar o agrimensor da Procuradoria, com excelentes referências: um senhor de 46 anos de idade, de nacionalidade austríaca, a quem convidou para criar e ministrar a disciplina de Cartografia para os cursos de Geografia e História do Instituto. Essa disciplina não fazia parte do currículo de nenhum curso superior do país, até então.

Desse modo, o agora Professor João Soukup criou, para o Instituto Sedes Sapientiae, a disciplina solicitada, contendo o programa, as cargas horárias e a bibliografia alinhada aos cursos. Planejou as aulas práticas, elaborou aula por aula com muito cuidado, dedicando-se de corpo e alma a uma atividade que acreditava ser única, rara e honrosa para um imigrante fugitivo de guerra, que jamais pensara exercer: ser Professor de uma faculdade!

Ensinar aquilo que ele mais conhecia, aquilo que ele estudou com muito afinco durante seus 4 anos no exército Austro-Húngaro, os assuntos que, para ele, eram conhecidos desde a juventude e que dominava amplamente, podemos afirmar que – por nos relacionarmos com o Prof. João Soukup, como seu aluno, pelo período de dois anos na USP e, agora, por conhecer quase toda sua obra – era, para ele, grande alegria. O ânimo e o furor acadêmico se apossaram dele!

Devido à inexistência de material didático, ao mesmo tempo em que criava a disciplina como currículo, começou também a preparar uma profusão de quadros murais, mapas, esboços, folhas de modelos didáticos, aulas práticas gráficas, etc., para a recém-criada disciplina de Cartografia. Em anexo, há uma lista de trabalhos datados de 1943, para mostrar que, além do trabalho na Procuradoria, o Prof. Soukup, que dava aulas duas vezes por semana, em um só período, ainda fazia serão para produzir o material didático, aproveitando, quase sempre, os finais de semana, férias e feriados.

Em conversa com os familiares soubemos que dificilmente se conseguia tirá-lo da mesa simples em que trabalhava – a pequena mesa da cozinha, aumentada com caixotes para apoiar os papeis de desenho – para alguma outra atividade, mesmo nos feriados, sábados e domingos! Além disso catava, pelas ruas e lojas, tudo quanto era papelão duro em bom estado para colar os trabalhos dando-lhes maior proteção. Também pegava varetas de madeira para encabeçar os mapas murais.

Relação de obras produzidas no ano de 1943

1. Quadro Mural com o material e utensílios que se esgotam, empregados na Cartografia e cópia para os alunos, com materiais que não se esgotam à direita.

Quadro mural medindo 86cm de largura X 104 cm de altura
Detalhe dos tipos de penas
Detalhe do material para a produção da tinta nanquim
Material para os alunos, com o conteúdo do mural, à esquerda e os materiais que não se esgotam, à direita

2. Aulas práticas.

Folha 1: diferentes letras
folha 3: convenções
folha 4: letreiros com penas diferentes
folha 5: Obs.: essa folha foi utilizada nos três anos consecutivos, conforme indicado. Mapa da América do Sul (falsa projeção cilíndrica de Mercator-Sanson). De acordo com as anotações do Prof. Soukup, ele elaborou um quadro mural da América do Sul, que utilizou nesta folha, em tamanho reduzido, e que não foi encontrado em seu acervo

3. Projeções sobre um plano: central, meridiano e polar. Estereográficas: azimutais e em perspectiva. Ortográficas: polar, equatorial e meridiana.

4. Quadro resumo das projeções mais usadas na representação da superfície do esferóide terrestre: equidistantes, equiangulares, equivalentes e outras.

5. As convenções usuais em relação à escala: folhas A, B, C e D. Há quadro mural.

6. Projeções cônicas (folha M).

7. As dimensões da terra segundo Bessel (1841). Há quadro mural.

8. Representação altimétrica ou “relevo”. Cotas, curvas de nível, hachuras, esbatido e cores.

9. Material e utensílios usados na Cartografia.