Capítulo IV

Aos 3 de janeiro de 1947, de acordo com os documentos do arquivo morto da Universidade de São Paulo, o  Prof. Plínio Ayrosa, vice- diretor em exercício da  Faculdade de Filosofia da USP, solicitava ao Exmo. Sr. Prof. Dr Benedito Montenegro as

[…] providências necessárias junto à Procuradoria do Patrimônio e Cadastro do Estado, no sentido de ser posto à disposição desta Faculdade, com prejuízos de vencimentos e sem prejuízos das vantagens do seu cargo efetivo, o Sr. João Soukup, a fim de prestar neste Instituto serviços técnicos de sua especialidade.

E assim começava o que acreditamos tenha sido uma das mais brilhantes carreiras de Professor Universitário, no campo da Cartografia, no Brasil. Mas, surgem aqui, várias perguntas: Como a USP “descobriu” o “Sr. João Soukup”? Quem o indicou para as aulas de Cartografia nessa universidade? A história dessa trajetória nos foi contada pelo Prof. Aroldo de Azevedo, numa conversa. Procuramos refazer essa história de memória: 

– Em 1941/42 estava eu (Prof. Aroldo de Azevedo) na Editora Nacional, tratando de assuntos ligados aos meus livros – editados desde 1936 – quando ouvi, por trás de uma parede de madeira, uma conversa do Prof. Delgado de Carvalho criticando meus livros no tocante aos mapas e gráficos. Dizia o colega as piores coisas: “mapas horríveis”, “mal feitos”, “que ninguém entende”, etc.

– Quando voltei para casa fui examinar bem os mapas que eu mesmo fazia e os comparei com os do Delgado, no seu livro Geografia Humana, de 1935. Os desenhos dele, quer mapas, quer gráficos, eram bem superiores, muito melhores que os meus. Tomei então a iniciativa de procurar por um desenhista, também.

– Dias depois, na Editora Nacional, me apresentaram dois desenhistas que lá trabalhavam, fazendo todos os tipos de ilustrações de textos que a editora necessitasse. Um deles era o Soukup, que eu não conhecia ainda.

– Para ter uma prova exata da capacidade dos desenhistas e escolher o melhor deles, a fim de deixar os meus livros com ilustrações não mais negativamente criticáveis, dei a ambos um trabalho que eu considerava difícil, em que havia cordilheiras bem altas, rios, planícies e linhas de costa. Enfim, um trabalho bastante completo e complexo do ponto de vista dos detalhes, para que eu pudesse escolher o melhor.

– Como amostra a ser executada, entreguei a ambos o mapa das bacias do Indo, Ganges e Bramaputra, tendo incluído, no conjunto, a famosa “Morada das Neves” – a Cordilheira do Himalaia.

Como curiosidade, observa-se que os rios Cabul, Indo e Tsen-Bo, desenhados sobre a parte alta do Himalaia (área acinzentada, mais escura) têm seus traçados sublinhados por um risco branco, para melhor visibilidade. Essa era uma estratégia usada por Soukup, que o diferenciava dos demais desenhistas e marcava a técnica aprimorada de seus trabalhos. Esse sublinhado em branco também se aplicava aos nomes dos rios em áreas escuras, de modo que ficassem totalmente legíveis.

– Alertei que me fosse apresentado um bom trabalho, pois dele eu escolheria o meu desenhista. Uma semana depois recebi os dois desenhos, ficando patenteada, sem sombra de dúvida, a qualidade, a perfeição de detalhes, a clareza e a elevada técnica do Sr. João Soukup.

– Daí por diante, passou o Prof. Soukup a desenhar todos os meus mapas, dando uma qualidade especial às minhas obras.  

Abrimos, aqui, um parêntese, para lembrar que, na década de 40, quando Aroldo de Azevedo conheceu Soukup, todas as ilustrações de livros editados no Brasil – quer desenhos, quer fotos – eram eminentemente em preto e branco. Assim, todas as ilustrações desenhadas por Soukup para os livros de Aroldo de Azevedo foram feitas para ser impressas em preto e branco. 

Perguntamos ao Prof. Aroldo qual a razão dele nunca citar, em prefácios ou notas de rodapé, o autor dos desenhos, o Prof. Soukup. Depois de sorrir, percebendo a nossa intenção de investigar a vida do Prof. Soukup, nos disse:

– Depois que o Prof. Soukup começou a lecionar na Faculdade de Filosofia do Sedes Sapientiae – a convite desta, em 1943, ficou bastante conhecido! Todos sabiam que era ele que ilustrava os meus livros e muitos outros, de outros autores. Além disso, ao lado da abreviatura do meu nome (A de A), noutro canto estava a letra S dentro do J, a não menos conhecida assinatura de João Soukup. Como todos os trabalhos eram impressos com essas duas siglas, eu nunca fiz referência especial ao autor dos desenhos dos meus livros.

Assinatura “JS”

Essa “assinatura” também era usada para vistar os trabalhos dos alunos. Para tanto, ele confeccionara um carimbo que se encontrava dentro de uma forma cilíndrica – à primeira vista, confundia-se com um batom – que tirava do bolso para marcar os trabalhos já corrigidos.

A vinda para a Faculdade de Filosofia da USP não foi fácil. Houve problemas burocráticos a serem superados, como os levantados pelo ofício n° 178/47 do Secretário de Justiça e Negócios do Interior, A. P. de Aguiar Whitaker ao Reitor da Universidade de São Paulo, que o encaminha ao Diretor da Faculdade de Filosofia, Prof. Dr. André Dreyfus, a respeito de sua contratação:

Senhor Reitor,

Em referência ao ofício n° 82, de 15 do corrente mês, Pr. 127-47, sobre comissionamento junto a essa Universidade do Sr. JOÃO SOUKUP, funcionário da Procuradoria do Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado, comunico a Vossa Excelência Magnificência não ser possível atender ao pedido em vista de obstáculo legal.    

Porém, esse “obstáculo legal” foi ultrapassado 36 dias depois (26/3/47), com o aval do Governador do Estado, Adhemar de Barros:

[…] e usando de suas atribuições e nos termos do art. 41, do decreto-lei n° 12.273, de 28 de outubro de 1941,     Resolve autorizar o afastamento de João Soukup, Agrimensor, classe “K”, do QG-PP-III, lotado na     Procuradoria do Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado, para, sem prejuízo de vencimentos e demais vantagens do cargo efetivo e até 31 de dezembro de 1947, para prestar serviços técnicos de sua especialidade à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da Reitoria da Universidade de São Paulo.   

Palácio do Governo do Estado de São Paulo, aos 26 de março de 1947.

ADHEMAR DE BARROS.     

O obstáculo legal era a falta do diploma de Curso Superior, documento que o Prof. Soukup não possuía e nem poderia obter na sua especialidade, pois não existia curso congênere no Brasil.

Abrimos, aqui, um parêntese para insinuar a possibilidade de que havia, sim, um diploma, que poderia corresponder ao grau universitário, de cartografia, cursado durante os 4 anos da I Grande Guerra, na Albânia, local em que João Soukup serviu ao exército Austro-Húngaro e onde estudou todas as disciplinas relacionadas ao tema. Seu grau de especialização em conhecimentos topográficos e cartográficos, a maestria com que ele tratava os variados assuntos que envolvem essas ciências: a precisão matemática, a física e os conhecimentos sobre a organização do terreno (na guerra, visando a movimentação e manutenção das tropas), que contribuiu com toda a base do ensino cartográfico, são saberes que não se aprendem em cursos colegiais, mas, sim, em anos de curso superior.

A família nos contou que ao fim da guerra, por estar em território inimigo, o exército Austro-Húngaro precisou deixar, abruptamente, o local em que se encontrava, preocupando-se em salvar vidas e não em recolher bens e documentos. Toda retirada é demasiadamente desorganizada. Dessa forma, toda a documentação que comprovaria o grau superior de Soukup perdeu-se. Cremos que possa até existir em algum local, tal documentação, mas como se trata de papelada de guerra, antiga (à época de Soukup no Brasil, com cerca de 50 anos e com vários agravantes:  a 2ª Grande Guerra, a distância em que vivia, a dificuldade de comunicação, dentre outros), é possível que realmente, tenha se perdido. Fechamos o parêntese.

Como o fim de março se aproximava e as aulas iniciavam, autorizaram o afastamento do cargo “sem prejuízo de vencimentos, até 31/12/47″.

No ano seguinte, o mesmo foi feito e sua contratação pela Universidade de São Paulo deu-se, novamente, para “prestar serviços técnicos junto ao Departamento de Geografia pelo prazo de um ano”, até 19/3/49, prazo que foi prorrogado até 19/3/1950. A contratação pela USP era condicionada aos afastamentos da Procuradoria, que eram sempre dados por um ano.   

Transcrevemos duas páginas do Boletim Paulista de Geografia, n° 3, 1949, pág. 82 e 83, para apresentar o programa de ensino de Cartografia criado pelo Prof. Soukup para a USP.    

O ensino da Cartografia.

Desde 1947 os alunos do 1° ano do curso de Geografia e História vêm recebendo um curso de Elementos de Cartografia, ministrado pelo prof. JOÃO SOUKUP, dentro do programa seguinte:

1. Estudo da Carta da França.

2. Os processos de engenharia necessários à Cartografia: noções gerais.

3. Representação gráfica da “situação” ou parte planimétrica.

4. Representação gráfica do relevo.

5. Os letreiros dos mapas.

6. Leituras de cartas e possibilidades da cartometria em cartas de pequena escala.

7. Projeções cartográficas: estudo sintético.

8. O material de desenho e o manejo dos utensílios indispensáveis à Cartografia.

9. O desenho de mapas fisiográficos e construção de blocos-diagramas e de perfis hipsométricos.

10. Esboços panorâmicos e “croquis” topográficos.    

Esse é o primeiro programa de Cartografia criado pelo Prof. João Soukup para os cursos de Geografia e História da Universidade de São Paulo. Pensamos que ele deve ter oferecido a bibliografia, as cargas horárias e os trabalhos práticos a serem executados pelos alunos.

Chama a atenção o item sobre a Carta da França. Na época, um material novo, o mais moderno, mas de difícil manuseio. Cremos que houve influência dos mestres franceses (que foram cofundadores da USP, trazidos pelo governo) na escolha dessa carta como material didático que nós mesmos ainda usamos em várias disciplinas, como alunos. Poderiam ter usado, por exemplo, as cartas em curvas de nível já existentes em l930, em várias escalas, elaboradas pela Società Anomima Rilevamenti Aerofotogrammetrici de Roma, mas a preferência foi dada à francesa.

Convenções cartográficas carta da França
Convenções cartográficas carta da França

Anteriormente já existiam outros levantamentos topográficos da cidade de são Paulo, como o de 1894, do engenheiro Bueno de Andrade, escala 1/1000, com curvas de nível de metro em metro. Mas talvez houvesse dificuldade em obter esse material topográfico, ou seja, as cartas em si. Já a carta francesa vinha em envelope, com cerca de dez exemplos didaticamente escolhidos, com toda variedade de acidentes topográficos e ainda um texto explicando detalhes técnicos.

Para entender melhor as ideias, o conteúdo e a maneira de didaticamente desenvolver o programa, podemos indicar alguns artigos do próprio Prof. Soukup, encontrados em seu livro Ensaios Cartográficos, a saber:

1. Uma aula inaugural de Cartografia no curso universitário. Publicado inicialmente no Anuário n° 16 da Faculdade de Filosofia Sedes Sapientiae da PUC de São Paulo.

2. O conteúdo e a classificação das cartas e mapas.

3. Noções sobre o material e os utensílios empregados na Cartografia geográfica.

4. Os diagramas geográficos e sua aplicação. Publicado inicialmente no Boletim Paulista de Geografia n° 14.

5. Os Cartogramas e sua aplicação em geografia. Publicação inicial no Boletim Paulista de Geografia n° 15.

6. Levantamentos expeditos em pesquisas de geografia. Primeira publicação no Boletim Paulista de Geografia n° 20.

7. A prancheta e sua utilização em trabalhos geográficos. Publicado inicialmente no Boletim Paulista de Geografia n° 21.      

Nota: Todos esses artigos estão integralmente disponibilizado neste site, na aba   “Ensaios Cartográficos”. Não constam, nessa publicação, editora e ano de edição.  

Além das aulas habituais em sala de aula com carteiras, geralmente, aos sábados, para atender os alunos que trabalhavam, eram ministradas aulas de campo, nos arredores do prédio da Reitoria do campus da Universidade onde alguns alunos, inclusive nós mesmos, colocávamos em prática  as medições de distâncias, uso de trenas, aferição do passo duplo, etc. Medíamos também ângulos com bússola e sextante de ameias. Usávamos um clinômetro prático feito com um transferidor, para medir ângulos verticais. Até uma poligonal fechada conseguimos desenhar, dividindo os erros, com a prancheta e a alidade de pínulas. Saíamos das aulas práticas somente por volta das seis horas da tarde. Podemos dizer que o Prof. Soukup era o que à época, chamávamos de “caxias”, pois não dava a aula por encerrada enquanto os alunos não tivessem feito tudo o que havia a fazer.

Essas aulas de campo nos foram muito úteis quando, já no doutorado, no pontal do Paranapanema, aproximadamente em 1970, fomos obrigados a desenhar plantas e caminhos de pequenos lugarejos que não constavam dos mapas, porque não existiam cartas topográficas na escala de 1/50.000.