Capítulo V
Nos três anos iniciais de atividades do Prof. Soukup no Departamento de Geografia da USP, ele produziu uma longa lista de trabalhos cartográficas culminando, em 1949, com o Mapa-Mundi em projeção azimutal, oblíqua e equidistante, tendo como centro a cidade de São Paulo.
Recebeu, com esse mapa, alentadores estímulos de todas as partes, o que muito o animou nos seus já vividos 52 anos. Assim se manifestou o Reitor Prof. Miguel Reale, aos 2/9/1949, em ofício ao Prof. Soukup:
Prezado Senhor:
Foi com a maior satisfação que examinei o “Mapa Mundi” de sua autoria, tendo como centro a cidade de São Paulo, em projeção azimutal, oblíqua e equidistante. É sem dúvida um trabalho verdadeiramente notável e que bem exprime seu preparo técnico e científico, estando portanto de parabéns a nossa ciência cartográfica, pois já podemos contar com profissionais tão acuradamente preparados neste setor de nossa Universidade.
Com os meus parabéns efusivos, subscrevo-me atenciosamente,
Miguel Reale
REITOR
Logo a seguir, em 14/9/49, o Prof. Soukup recebe cumprimentos do então governador Adhemar de Barros:
Ilmo. Sr. João Soukup
Tenho o prazer de acusar o recebimento, por intermédio da Reitoria da Universidade, de uma cópia do magnífico trabalho de sua autoria, o “Mapa Mundi” em projeção azimutal, oblíqua e equidistante, tendo como centro a cidade de São Paulo.
Com os meus cumprimentos pelo belo trabalho, apresento-lhe os protestos de minha elevada estima e distinto apreço.
Adhemar de Barros
Governador do Estado
Como se tudo isso não bastasse, recebe ainda uma gratificação do governo do estado (correspondente a um salário dele) pela confecção do referido Mapa Mundi:
[…] nesta data, por ofício n° 3.174 da Reitoria, com referência ao ofício n°1.274, de 5 de setembro p.p., cumpre-me comunicar a V. Excia., de ordem do Magnífico Reitor, que o Excelentíssimo Senhor Governador, por despacho exarado em 4 do corrente a fls. 5 do Proc. 9008/49, desta Reitoria, houve por bem autorizar seja arbitrada ao Prof. João Soukup, do Departamento de Geografia desta Faculdade, a gratificação de Cr$4.ooo,oo, pela elaboração de um “Mapa Mundi”, em projeção azimutal, tendo como centro a cidade de São Paulo. (Proc. N° 9008/49).
Aos 18/8/1950, a Escola Superior de Guerra solicita o envio de 30 exemplares.
O processo de elaboração do “famoso” Mapa-Mundi foi publicado no Boletim Paulista de Geografia n° 3, com uma longa, porém clara explanação, na qual consta todo o trabalho trigonométrico, logarítmico, a projeção e finalmente, o desenho do mapa, em duas páginas, em branco e preto.
A USP também editou o mapa, em cores, na escala de 1/75.000.000, tendo o Prof. Soukup, para que essa publicação se realizasse, empregado 768 horas de trabalho intensivo, sendo 320 horas para os cálculos das ortodrômias e dos azimutes, 230 horas para a construção na escala de 1/50.000.000, e cerca de 218 horas para a elaboração do mapa definitivo, na escala de 1/75.000.000.
Para conhecimento dos alunos, o Prof. Soukup também elaborou um mapa didático simplificado, no qual mostrava sua utilização para radioamadores e aviação em geral, pois apontava as distâncias verdadeiras a partir da cidade de São Paulo e as direções em graus.
Em dezembro de 1950 terminaria o prazo de comissionamento do Prof. Soukup. Aos 31 de outubro desse ano, o Prof. Aroldo de Azevedo, então Diretor do Departamento de Geografia, envia ofício ao Prof. Dr. Eurípedes Simões de Paula, diretor da FFCL da USP, solicitando novo contrato.
Trata-se, senhor Diretor, de um dos mais competentes membros do Departamento de Geografia, com larga experiência no magistério superior dentro de sua especialidade, e a respeito de cuja técnica ninguém pode ter dúvidas, desde que elaborou o “Mapa-Mundi” em projeção azimutal, tendo por centro a cidade de São Paulo. Parece-me, pois, de inteira justiça, dar-lhe nesta Faculdade a posição a que faz jús pelos seus conhecimentos e pela sua experiência. Nestas condições, é com a mais viva satisfação que venho solicitar de V.Excia. que, após a imprescindível audiência do Conselho Técnico Administrativo e da Congregação, seja proposto ao Governo do Estado o contrato do prof. João Soukup para dar o curso de Cartografia nesta Faculdade, pelo prazo de três anos e com os vencimentos de professor de tempo parcial”.
Essa é a primeira vez que João Soukup é chamado, oficialmente, pelo título de Professor. Além disso, o Prof. Aroldo de Azevedo afirma que o Prof. Soukup era “um dos mais competentes membros do Departamento de Geografia”. Ademais, reconhecia a sua capacidade, pois o indicava para ministrar o curso de Cartografia.
Ao receber a proposta, o Diretor da Faculdade de Filosofia encaminhou o pedido ao Prof. Fernando de Azevedo para que relatasse o assunto (4/11/1950). Assim se manifestou esse Professor, de próprio punho, aos 9/11/1950:
A proposta do sr. prof. Aroldo de Azevedo Diretor do Departamento de Geografia, de que seja contratado o prof. João Soukup para dar o curso de Cartografia, nesta Faculdade, pelo prazo de três anos e com os vencimentos de tempo parcial, está tão bem fundamentada e interessa de tal forma à Faculdade e, particularmente, ao departamento de geografia que não pode deixar de obter no Conselho Técnico Administrativo plena aprovação. Trata-se do contrato de um especialista de primeira ordem em Cartografia e topografia, cuja capacidade ressalta, com forte constância, de seus títulos, de sua carreira profissional e de seus trabalhos. Se de seu curriculum vitae não consta nenhum curso superior na especialidade, é certo que essa deficiência, do ponto de vista regulamentar, foi plenamente suprida por uma atividade profissional de longos anos, no campo da Cartografia e topografia a que se dedicou, quer no período da 1ª guerra mundial, de 1914 a1918, quer depois que se transferiu para o Brasil, onde se impoz ao respeito e á consideração de todos pela sua notável competência nêsses assuntos. Quanto posso julgar, dificilmente se encontraria, em nossos meios culturais, especialista com tantos títulos para exercer o magistério da disciplina. Sou, pois, de parecer que seja contratado, nos termos da proposta, o prof. João Soukup, que aliás já vem prestando excelentes serviços técnicos e didáticos ao Departamento de Geografia, como responsavel pelo curso de Cartografia.
Em 1955 houve demora no afastamento e o Prof. Soukup reassumiu suas funções na Secretaria da Justiça, no Patrimônio e Cadastro do Estado, pois estava comissionado sem vencimentos. Não havia outra pessoa que o substituísse no ensino da Cartografia. Este aflitivo problema é evidenciado no parágrafo transcrito abaixo, do pedido elaborado pelo Prof. Ary França, então Diretor do Departamento de Geografia:
Sendo Cartografia u’a matéria especial dentro de nosso Departamento, para cuja regência se exigem conhecimentos e aptidões particulares, o professor Soukup vém revelando com pleno sucesso nos 8 anos em que se encarregou do curso, e tendo o seu afastamento criado para nós um problema de difícil solução, sobretudo em face do início do ano letivo, peço a V. Excia. A gentilesa de encaminhar, tendo em vista uma solução urgente, o pedido de comissionamento, que se impõe (comissionamento com prejuiso de vencimentos, a partir de 1° de março corrente), e de renovação do contrato (a partir de 1° de janeiro de 1955).
Em 1957 o Prof. Soukup completava uma década de trabalho como Professor da USP, cônscio de seus deveres e obrigações, leal, amigo, desprendido de todo bem material, colaborando com todos, ajudando este e aquele, e – coisa curiosa! – com cem por cento de assiduidade! Não deu nenhuma falta sequer ao serviço nesses 10 anos, mesmo andando de ônibus e bondes, pois não tinha carro. Essa assiduidade levou até o fim de sua carreira.
No final do ano de 1957 é feito novo pedido de contrato:
Ao propor essa renovação de contrato, por mais três anos e, se possível, em bases financeiras melhores, só me cabe afirmar sua imprescindível necessidade, sob pena de sermos forçados a retirar do currículo do Curso de Geografia a disciplina de Cartografia. Não exagero, senhor Diretor, ao declarar que, atualmente, é o Prof. João Soukup o único a dar, em nível superior, um curso de Cartografia, dentro das fronteiras do Estado. Comprovando esta afirmativa, basta lembrar que leciona ele tal matéria em nossa Faculdade, ainda nas Faculdades de Filosofia “Sedes Sapientiae”, de São Bento e de Sorocaba.
Além de não faltar às aulas e reuniões, de lecionar em cinco cursos superiores, de ministrar aulas de campo e preparar, dedicada e conscienciosamente, suas aulas dos cursos de graduação, arranjava tempo para preparar material inédito para exposições, como a que se realizou em Ribeirão Preto – SP, em julho de 1954.
Nada melhor do que transcrever o que se acha gravado nos Anais da Associação dos Geógrafos Brasileiros, vol. VIII, tomo I, 1956, página 35, sobre essa exposição:
As realizações do cartógrafo Soukup constituem, sem dúvida, uma nota de relevo pela obra pessoal, realmente admirável, sintetizada nos seguintes pontos:1. é um trabalho em grande parte original e de acordo com as modernas correntes da Cartografia representativa; 2. é de uma clareza extraordinária e, além disso, altamente didática; 3. guarda em seu conteúdo cartográfico, uma verdadeira obra de arte; 4. não sòmente trata dos símbolos convencionais cartográficos, como também, dá solução a vários problemas, indicando métodos e até instrumentos utilizados na representação gráfica e cartográfica; 5. finalmente, chama a atenção pela variedade e pela qualidade. A quantidade e, mais do que isso, a qualidade do material exposto pelo conhecido cartógrafo Soukup, desperta a atenção de quem quer que visite a exposição. Sem insistir em elogios, que são óbvios, esta Comissão toma a liberdade de fazer ao Sr. Soukup algumas sugestões, tais como: a. publicar um ou vários trabalhos seriados, configurando um verdadeiro curso de Cartografia representativa; b. iniciar o curso com a explicação dos processos e métodos de representação cartográfica, e tratar de divulgar sua obra em instituições docentes. 6. Nenhuma dúvida existirá de que, sem o elemento humano classificado, nada se poderia fazer para o sucesso da ”Exposição de Geografia e Cartografia” que a nossa A.G.B. abre aos olhos e ao espírito da nobre Ribeirão Preto.
Ribeirão Preto, 23 de julho de 1954.
Ass. Jorge Chebataroff, Tabajara Pedroso e Lafayette Pereira Guimarães, Relatores.







