Capítulo VI
Ao ser chamado para assinar novo contrato referente aos anos de 1958 e 1959, um fato bastante curioso motivou sua manifestação em carta admiravelmente simples, datilografada em papel pautado dirigida ao Dr. Ary França, então Diretor do Departamento de Geografia, aos 2 de maio de l958. Assim dizia:
Chamado pela Seção de Pessoal para assinar o meu contrato em prorrogação, – ontem, digo hoje, 2 de maio de 1958, isto é, depois de 8 meses de preparo – não me foi passível firmar esse documento por estarem nele incluídas obrigações que nunca fizeram parte das tarefas atribuídas ao cargo para que fui contratado.
Depois de lecionar Cartografia neste sempre bem orientado Departamento por mais de 11 anos, são exigidas de mim no referido contrato, atividades que a meu ver nada tem em comum com a ocupação de ensinar a matéria de Cartografia. No contrato querem me obrigar a colaborar com a Associação dos Geógrafos Brasileiros, que é uma instituição a que tenho a honra de pertencer, mas que por decreto algum está ligada ao Departamento. Exigem de mim colaborar na obra de uma Geografia do Brasil, que é uma empresa muito louvável, nobre e necessária mas, mesmo assim, não é uma tarefa oficial do Departamento e pelo contrário impulsada pelo comércio de livros. Acho que não é justo obrigarem-me a uma colaboração.
Também na parte das obrigações fala-se do meu trabalho particular da elaboração de uma obra que pretendo denominar “Aulas de Cartografia”, exigindo uma finalização desse trabalho.
Permita-me o Sr. declarar-lhe que nunca alguem se interessou por esse trabalho meu, pelo que “eu” estou realizando nas minhas já raras horas disponíveis, sem ajuda nem estimulo de ninguém do Departamento; pelo contrário notei sempre uma certa reserva quando por acaso falei a alguém deste trabalho. Agora, repentinamente, na clausula que trata das atividades do contratado, aparece referência a esse trabalho como si fosse uma tarefa iniciada em atenção a um convite oficial.
O referido contrato dava ao Prof. Soukup toda a razão. Vejamos o trecho:
[…] Sr. João Soukup para exercer a função técnica e didática de Auxiliar de Ensino devendo ter a seu cargo: aulas de Cartografia do Departamento de Geografia, elaboração final do Manual de Cartografia, colaboração à Associação dos Geógrafos Brasileiros bem como à grande Geografia do Brasil, em 5 volumes, obra coletiva em fase de execução sob a direção do Prof. Aroldo de Azevedo, junto à Faculdade de Filosofia Ciências e Letras.
Aqui fica uma incógnita: qual o interesse pela obra de caráter particular do Prof. Soukup? Será que o Departamento de Geografia estava querendo estimular a sua produção cartográfica, colocando um prazo determinado para que fosse terminado o fabuloso curso intitulado “Aulas de Cartografia?” Ou será que, na falta de quem desenhasse tão bem, com grande cuidado gráfico e com acurada precisão matemática, se tentasse assegurar a presença do mestre em tão importante obra como a “Geografia do Brasil”?
De outro lado, pode-se também inferir que, diante da falta de formação universitária, o corpo docente tentasse – até subconscientemente, talvez – colocar o Prof. Soukup numa posição de inferioridade, obrigando-o a trabalhos meramente técnicos, para os quais, aliás, possuía admirável habilidade. Fica aqui a dúvida, à procura de maiores esclarecimentos.
A cláusula foi corrigida aos 12/5/1958, e o contrato assinado, cabendo ao Prof. Soukup as aulas teóricas, as aulas práticas de gabinete e as aulas práticas de campo.
