Capítulo VII
No ano de 1960 se iniciou o que podemos chamar de “grande pesadelo” do Professor João Soukup. Pela Lei 5588 de 27/1/1960, reclassificadas as funções docentes, o Auxiliar de Ensino passaria a ser Assistente Extranumerário, desde que apresentasse o diploma de curso superior. Depois de muitos pareceres técnicos e de muito tempo se passar sem que ele pudesse ministrar suas aulas de Cartografia na USP, concluiu-se, em 20/6/1962, com aval do Departamento Estadual de Administração, que o Prof. Soukup poderia escolher uma das situações, pois já tinha adquirido Estabilidade no Serviço Público. No entanto, somente no ano de 1963 (aos 9 de outubro), devido aos trâmites legais muito demorados, pode reassumir suas funções de Auxiliar de Ensino.
Porém, durante esses anos de incertezas, o Prof. Soukup denota, em carta por ele redigida e abaixo transcrita, sua angústia por não poder mais ministrar as aulas de Cartografia, para as quais fora convidado em 1947. Colocando um fim a essas incertezas, sua aposentadoria foi publicada em 28/2/64. A carta a seguir documenta os últimos anos de sua vida funcional:
São Paulo, 5 de setembro de 1960
Senhor Diretor.
No mês passado fui informado pelo sr. chefe da secção de pessoal de nossa Faculdade que meus vencimentos (julho 1960) não poderiam ser pagos em virtude das dúvidas que existem a respeito do cargo que ocupo por contrato (em vigor) por não apresentar título universitário. O curriculum que apresentei logo que fui comissionado junto ao Departamento de Geografia em 1947, explica claramente o meu preparo para a atividade de transmitir noções de Cartografia a futuros professores de Geografia, o que aliás já faço há 14 anos no Deptº, sem que alguém me julgasse incompetente.
Apezar de ter dedicação profissional para com a Cartografia nunca mostrei ambições exageradas em relação a progresso posicional e econômico fora das melhorias oferecidas dentro de movimentos gerais do funcionalismo. Nem me mostrei amargurado quando em 1950, proposto e aprovado pela egrégia Congregação da Faculdade o meu aproveitamento como professor contratado de Cartografia, tal proposta não se realizou apezar do parecer favorável que apresentou ao egrégio CTA o ilustre prof. Catedrático Dr. Fernando de Azevedo, então relator.
Agora, 10 anos depois, acho-me embaraçado por um fato de que se tinha conhecimento desde há 14 anos. Escolas profissionais públicas para formar cartógrafos existem apenas desde 1935 e aqui refiro-me a paízes europeus e a instalação de cursos para a formação de cartógrafos de nível universitário é um acontecimento recente (1955).
A minha formação – conto hoje 63 anos de idade e dos quais vivi 40 anos no Brasil – realizou-se em época mais remota e, como disse no curriculum, ainda não em escola civil pública; é uma instrução militar a base das minhas habilidades gráficas e dos conhecimentos cartográficos.
Convidado em 1943 pela Diretoria da Escola Superior de Filosofia “Sedes Sapientiae” em São Paulo para organizar aulas de Cartografia, estou desde então, já há 17 anos, dando estas aulas, considerando-me esta e outras Faculdades Paulistas, onde organizei o curso de Cartografia, como seu professor contratado sem dificuldades com relação a observância de seus regulamentos. No Brasil não há escolas profissionais nem superiores públicas ou particulares que formem cartógrafos no sentido tradicional e de conceito internacional. A ciência cartográfica que hoje é um fato consumado, não se radicou ainda de forma íntregra no Brasil. Conhecimentos gerais de Cartografia são indispensáveis aos professores de Geografia e se o destino me colocou em situação de ensinar tal matéria e me permitiu conseguir algum sucesso – baseando-me na continuidade de lecionar 17 anos e na ausência de uma crítica desfavorável à minha orientação e organização das aulas de Cartografia, destinadas exclusivamente a futuros professores de geografia – peço a VS intervir em meu caso para que seja poupado da humilhação inaceitável de uma postergação não merecida na fase atual da nova regulamentação dos postos de magistério ordenada pelo atual Governo. Os meus vencimentos corresponderam sempre aos de primeiro assistente porque estava e estou encarregado de ministrar uma disciplina com autonomia didática, razão porque peço-lhe também conservar-me uma posição que corresponde à matéria à responsabilidade exercida.
Esperando poder contar com a sua benevolente atuação perante à egrégia CTA e o Magnífico senhor Reitor com relação ao exposto, sou a seu inteiro dispor, atenciosamente
João Soukup.
Ao Exmo. Sr. Prof. Dr Paulo Sawaya
DD. Diretor da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo
Aos 6 de setembro de 1960, o Professor Aroldo de Azevedo encaminha o pedido para a contratação do Prof. Soukup como Assistente Extranumerário, subscrevendo-o integralmente, por ser da mais absoluta justiça.
A Secção do Pessoal, aos 5/10/1960, informa que a condição para ser Assistente Extranumerário está expressa no artigo 19 e seu parágrafo, “parecendo, salvo melhor juízo, não ser o caso do Prof. João Soukup, o qual, infelizmente, não pode provar ter concluído curso superior”.
Em novembro, nova proposta do prof. Ary França para a recontratação do Prof. Soukup, pelo prazo de três anos. Porém, o texto desse ofício é simples e frio:
Peço vênia a V. Exa. para encarecer a necessidade de um andamento rápido ao meu pedido, para que não venham a sofrer descontinuidade os serviços didáticos e técnicos que presta a este Departamento o Professor João Soukup.
Em fevereiro de 1961, é publicado o afastamento do Prof. Soukup da Procuradoria por 1.095 dias, o correspondente à contratação por três anos. Mas o contrato não se efetiva e o Prof. Soukup é impedido de ministrar as aulas de Cartografia.
De acordo com sua família, aquele mês de março foi um inferno para o Prof. Soukup; ele não acreditava que serviu durante tantos anos e agora não servia mais… Os alunos também ficam aturdidos e sem saber dos detalhes referentes à proibicão de lecionar que recaiu sobre o mestre muito querido, e publicam, em jornal mural, no Departamento de Geografia, uma série de elogios à sua pessoa e ao seu trabalho incansável.
O Prof. Soukup – e disso somos testemunhas oculares –, ao tomar conhecimento dessa manifestação a seu favor feita pelos seus alunos, fica muito nervoso, como nunca o havíamos visto antes! Vai ao quadro mural, arranca e amassa o papel da manifestação, dizendo: “Vocês não deveriam ter feito isto! Agora as coisas podem complicar mais ainda!”
Em seguida vai para sua sala. Depois, em casa, conforme relato da família, muito aborrecido e enormemente magoado, diz que estava tudo acabado e que seria difícil voltar a lecionar na USP. Imaginava que tinha amigos de longos anos, e que esses amigos haviam se voltado contra ele.
