Epílogo

Cinco meses depois, aos 27/10/1961, o Prof. Ary França, Diretor do Departamento de Geografia, envia uma carta ao Diretor da Faculdade de Filosofia que, em termos bastante rígidos, coloca um ponto final na carreira do Prof. João Soukup dentro da Universidade de São Paulo. Eis a íntegra do documento:

Ao encaminhar a V. Excia., como pede o Senhor João Soukup, um memorial por ele dirigido ao Magnífico Reitor da Universidade, devo reiterar que o Departamento de Geografia não deseja nem pedirá, em hipótese alguma, a renovação do contrato em que se achou aquele Agrimensor da Secretaria de Justiça do Estado, como encarregado das aulas de Cartografia – como já tivemos ocasião de comunicar a V. Excia., por ofício de 18 de setembro do corrente ano, de que anexamos a este uma cópia.          

Como é também, do conhecimento de V. Excia., já solicitamos a contratação de Professor italiano para a regência do referido curso e esperamos, sob a orientação de especialista altamente qualificado, a renovação do ensino daquela disciplina nesta casa, pois não interessa ao Curso de Geografia a orientação não atualizada e não didática, à base de desenho cartográfico, que até o último ano vinha sendo dada pelo interessado, Senhor João Soukup, às aulas de Cartografia destinadas à formação de Geógrafos. A medida – legal que impediu o Senhor Soukup de continuar em função docente na Universidade de São Paulo, nada mais fez do que antecipar uma providência que nós mesmos, os Professores de Geografia desta Faculdade, iríamos tomar e que, tanto o Curso de Geografia como os próprios estudantes estavam reclamando: a substituição do Encarregado das aulas de Cartografia.

Não sabemos o que se passou nos últimos cinco meses. O ex-Professor – agora “Senhor” Soukup, ou ainda o “Encarregado das aulas”, qualificativos que substituem o significado do título “Professor” e insinuam a inferioridade do profissional, comparados com o antigo tratamento – de acordo com as informações obtidas junto à família, cumpriu todos os seus horários, pois ainda estava contratado e não era do seu feitio faltar aos compromissos. Talvez a sua presença, agora incômoda, indesejável e constrangedora, tenha dado origem à carta do Prof. Ary França, tão dura, humilhante e eivada de ingratidões.     

No dia 15 de novembro de 1961 o Prof. Soukup redige outro memorial e solicita que seja anexado a uma carta que pedia o corte de sua gratificação pelo trabalho no período noturno:

Prezado Senhor.       

Em dia do mês passado fui convidado pela Secção do Pessoal a tomar conhecimento de um ofício e respectivo despacho, em que o Dept° de Geografia propuzera o corte de minha gratificação por aulas noturnas, proposta essa com que VS. se dignou concordar, baseando-se nos argumentos apresentados para fundamentar o pedido, argumentos esses que, felizmente para mim, não correspondem à realidade.       

Declaro nesta oportunidade que nunca recusei colaborar em trabalhos de interesse do Dept° e muito menos ainda negar a minha experiência e capacidade profissional para a realização do planejado ATLAS DE SÃO PAULO, que uma cadeira do curso de Geografia tenta editar.        

Por diversas vezes fiz estas declarações ao Dept° e ainda no dia 15 de maio de 1961 pedi, por bilhete ao prof. Ary França, orientação sob o modo por que poderia ajudar, enquanto aguardava uma solução justa para o caso do meu afastamento do ensino de Cartografia. Não concordei foi com a imposição de assinar condições de alteração do meu contrato de docente, o que equivaleria a um suicídio como professor de Cartografia, depois de 14 a 19 anos de ensino e progressivo trabalho construtivo, respectivamente no Dept° e em outros institutos universitários.        

Em 22 de junho pp. O Dept°, representado por três professores catedráticos, negou-se verbalmente a atender a um memorial que lhe dirigi para comunicar novos fatos favoráveis à minha situação e pedir um apoio neste sentido.      

Nessa reunião, depois de longa conversa infrutífera, na qual tornei a oferecer a minha colaboração, DESDE SE MANTIVESSE minha CONDIÇÃO DE DOCENTE, o prof. Ary França como diretor, na presença dos professores Aroldo de Azevedo e João Dias da Silveira, DECLAROU que o Dept° HAVIA RESOLVIDO NADA PEDIR DE MIM e que eu deveria continuar a esperar.

Apesar dessa declaração, continuei a procurar o Dept° em dias alternados, esperando encontrar sobre a mesa qualquer aviso ou instrução para poder servir e, mesmo no período noturno, não deixei de comparecer o suficiente para evitar críticas.    

Sinto-me no Dept° como um banido, evitando encontros e conversas inúteis e contraproducentes com as pessoas que conseguiram, ao que parece por autoridade própria, afastar-me das aulas e agora, efetuar cortes nos meus vencimentos.   

Peço a VS. a justiça de se fazer juntar o presente memorial à carta em que se pediu o corte da minha gratificação pelo período noturno, uma vez que os termos em que foi redijida são injustamente prejudiciais à minha folha de conduta de funcionário público, com mais de 25 anos de serviço, até agora não maculada por qualquer ínfima observação que desabone minha pessoa.    

Certo do atendimento deste pedido, assino-me, com todo o respeito    

João Soukup, aux. de ensino contratado para dar aulas de Cartografia

Esse memorial (como assim o Prof. Soukup chamava a documentação que apresentava) deixa transparecer sua grande mágoa. Afinal, depois de iniciar uma carreira de Professor Universitário, que considerava “a mais honrosa”, trabalhar muito, produzir excelentes obras, ser elogiado por Reitores, por Governadores, ser reconhecido como um ótimo Professor e cartógrafo nos congressos e exposições de que participou e, depois de toda essa trajetória, depois de sua desmedida dedicação (vê-se, por exemplo, pelas horas em que trabalhou na pesquisa e produção de suas pranchas e murais didáticos para as aulas), receber, oficialmente, um tratamento humilhante (nos ofícios e comunicados do Departamento de Geografia), após quase 20 anos de carreira, é, com certeza, por demais doloroso.

Cronograma final         

  • 23/3/1962 – volta a assumir seu cargo no Patrimônio Imobiliário e Cadastro do Estado de São Paulo, pois cassaram parte de seu último afastamento de três anos.
  • 7/7/1962 – é declarado “Estável” no Serviço Público;
  • 31/3/1963 – completa 30 anos de serviço público;
  • 9/10/1963 escolhe optar pela função de “Auxiliar de Ensino” no Estado de SP;
  • 28/2/1964 é aposentado.

Aos 19 de dezembro de 1967, o Prof. Soukup arrumou seu material para ir à cidade de Santos, a fim de ministrar a última prova do ano aos alunos da Faculdade Católica. Um colega ofereceu-lhe carona, mas o Prof. recusou a oferta, pois um de seus maiores prazeres era apreciar a paisagem da estrada de ferro mais longa (Sorocabana) que descia a serra do Mar suavemente, beirando um paredão escarpado e apresentando, em seu lado oposto, o verde da vegetação exuberante da serra, visões que lhe traziam lembranças de sua terra Natal, na Europa. Tomou o trem e, apreciando a vista que lhe era cara, pela janela do vagão, adormeceu, placidamente, para sempre…